segunda-feira, 19 de maio de 2008

Negras e pobres são as maiores vítimas de aborto clandestino

Negras e pobres são as maiores vítimas de aborto clandestino
Plantão Publicada em 31/07/2007 às 18h25m - Jornal o Globo
RIO - Jovens Negras, com poucos recursos e residentes nas regiões mais pobres do Brasil são as principais vítimas do aborto clandestino. Pesquisa divulgada nesta terça-feira pela ONG Ipas Brasil - a pedido do Ministério da Saúde - revela que as Negras têm três vezes mais chances de morrer por complicações - geralmente hemorragias ou infecções - do que as brancas. O estudo - realizado em parceria com a Uerj e baseado em informações colhidas entre 1992 e 2005 - mostra que são realizados cerca de 1,04 milhões de abortos anuais no país - ou seja, de cada quatro gestações, uma é interrompida.
A prática do aborto - considerada crime no Brasil e que pode ser punida com até três anos de prisão - se transformou na terceira causa de morte materna no país.
- O acesso à educação e aos anticoncepcionais para as mulheres é fundamental para se reduzir esse tipo de morte - explicou Leila Adessa, diretora do Ipas Brasil, durante entrevista coletiva para correspondentes estrangeiros.
- O aborto ilegal é um problema de saúde pública e tem que ser enfrentado como tal, seria interessante que os políticos promovam uma mudança na legislação - acrescentou a diretora.
O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, já defendeu a realização de um plebiscito sobre a descriminalização do aborto. Atualmente, o aborto é considerado legal no Brasil apenas em casos de estupro e risco de vida para mãe.
Para a advogada e consultora da Ipas, Beatriz Galli, a lei restritiva tem um impacto grave na saúde e na vida das mulheres jovens e adolescentes, que diante de uma gravidez indesejada tentam abortar em clínicas clandestinas.
- A lei atual criminaliza as mulheres e cria uma situação de injustiça social - afirmou.


sexta-feira, 16 de maio de 2008

120 anos abolição da escravatura: da cachaça ao etanol

120 anos abolição da escravatura: da cachaça ao etanol
Deise Benedito*

Cento e vinte anos pós abolição, não temos o que comemorar nem celebrar. O que nos resta é apenas refletir sobre alguns fatos que se repetem, nos mesmos moldes do período da escravidão!
Estamos diante de um novo ciclo da mesma cana de açúcar que adoçou os pensamentos e enriqueceu os bolsos da coroa portuguesa – marco fundamental da economia nos primeiros tempos da escravização de africanos no Brasil. 120 anos depois da pseudo-aboliçã o, aqui, em São Paulo , estão transformando homens e mulheres negras descentes de africanos em “novos” protagonistas da agonia dos canaviais paulistas em função do enriquecimento do mercado de capitais dos novos fazendeiros de cana de açúcar, tendo, agora, como moeda o etanol.
O novo ciclo da cana de açúcar nas fazendas do interior de São Paulo está impondo uma “mesma” rotina cruel, desumana e degradante aos cortadores de cana de açúcar: jovens, mulheres e homens desprovidos de políticas publicas se deslocam como seus antepassados nos dias 15, 16, 17 de maio de 1888, em busca de trabalho para a sobrevivência nas fazendas de café do interior de vários estados, para trabalharem por um prato de comida!
Para muitos estudiosos, atualmente a vida dos jovens homens e mulheres nos canaviais paulistas se equipara às condições que viveram nossos ancestrais, no seu lado mais perverso, gerando novos empregos onde a movimentação interna da economia deve exportar 7 bilhões de dólares só com o etanol. Mas, obviamente, não se ouve falar em “participação nos lucros”!!! E, bem sabemos, parte desse montante de lucro não será repassado para os cortadores de cana. Nem tão pouco será destinado à implementação de políticas públicas para a população negra e pobre oriunda desses municípios dos rincões do Brasil que fornecem a mão de obra barata e desqualificada para “tecnologia de ponta”. Serão 7 bilhões de dólares; tudo conforme no tempo da escravidão oficial.
O super-esforço no trabalho do corte da cana tem levado à morte centenas de jovens, homens e mulheres, por exaustão! Tudo exatamente como há mais de 120 anos! Agora, os fazendeiros/ usineiros assustados com a repercussão das mortes dos “trabalhadores do corte da cana”, estão adotando “outras” formas de contratação (segundo a pesquisadora Maria Aparecida de Moraes Silva, professora e livre docente da UNESP). A busca de maior produtividade obriga os cortadores de cana de açúcar a colher até 15 toneladas de cana de açúcar por dia. Tal esforço físico, encurtando o tempo de vida dos trabalhadores, provoca a geração de mais empregos!!!
Na década de 1980 e 1990, o tempo que o trabalhador ficava nesse setor era de 15 anos. A partir do ano 2000, segundo o historiador Moraes Silva, a vida “útil” do trabalhador é de 12 anos. Com esse tempo, o “trabalhador começa a ter problemas sérios de câimbras, tendinite e fortes dores na coluna”.É possível imaginar um Brasil que em pleno século XXI vende aviões para os Estados Unidos da América e para outros países; que exporta tecnologia; inteligência de ponta na mecatrônica; que investe na mineralogia; com jovens vivendo nas mesmas condições que seus tetravôs, tataravôs, bisavôs, avôs? A vida dos imigrantes jovens cortadores de cana que vêm das regiões do interior do Piauí e do Maranhão não difere da situação de vida que viveram nossos ancestrais. Com isto se comprova que a após a abolição da escravatura nada mudou para a população negra. Segundo o historiador Jacob Gorender, o ciclo de vida útil dos escravos na agricultura era de 10 a 12 anos, em 1850; isto é, antes da proibição do tráfico de negros provenientes do continente africano.
Segundo Maria Aparecida de Jesus Pino Camargo, um jovem trabalhador anda de 8 a 9 km a pé por dia para chegar ao canavial. Mesmo assim se tem obtido alguns avanços, quando existe a fiscalização do Ministério Publico do Trabalho que exige dos usineiros exames admissionais. Porém, também se sabe a respeito do uso de substâncias entorpecentes, como a cocaína e o crack, nas lavouras, para “dar pique”, além de assassinatos por dívidas pelo consumo da droga e, ainda, podendo ser presos e condenados por tráfico de drogas ou se enveredando pelo submundo do crime para sustentar o vício.
As condições de vida, em geral, são subumanas com alojamentos sem saneamento básico, luz, água potável; apenas uma cama “solteira”, um pequeno fogão, um aparelho de TV e, muitas vezes pagando aluguel de R$ 120,00 por mês contra um “salário” de R$ 500,00.
Nesses meandros, prevalece a “lei da sobrevivência” onde “só os fortes sobrevivem”: aqueles que conseguem cortar de 100 a 120 m de cana por dia e que conseguem ganhar até R$ 800,00 por mês. As mulheres também estão no corte de cana: são jovens, semi-alfabetizadas, muitas vezes chefes de família que têm a incumbência de preparar o jantar e a marmita do dia seguinte. Elas chegam para o corte por volta das 4 horas da manhã e ficam expostas ao trabalho até às 16 horas.
A expansão da cana de açúcar e do mercado de etanol estão provocando uma nova migração para o estado de São Paulo. Este, como sabemos, um dos redutos mais resistentes a abolição da escravatura (1888), tendo a cidade de Campinas como a última cidade a abolir o trabalho escravo. Agora, há um fluxo proveniente de Minas Gerais e da Bahia, do Maranhão e do Piauí. Maria Aparecida Moraes Silva pesquisou estes novos “quase cidadãos” que sem ter onde trabalhar, sem a cultura regional do babaçu, são obrigados a vir para São Paulo cortar cana. Muitos são “expulsos” pelo cultivo da soja, quase nenhum é herdeiro de fazendeiro ou mesmo de produtores.
Por que estaria eu, nesse texto, escrevendo com o foco na juventude do canavial? Por não poder mais admitir tantas omissões e desrespeito com relação à população negra e pobre deste pais. É inadmissível que o Estatuto da Igualdade Racial fique sendo tratado como algo sem qualquer prioridade, quando temos jovens morrendo na região urbana, pelo extermínio, e na zona rural, pela exaustão! Quando vemos empresas receberem milhões e milhões de recursos dos cofres públicos e não retornarem para ações relevantes para sociedade, principalmente com foco na juventude. Quando vejo que no último levantamento realizado pelo Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN), do Ministério da Justiça, o Brasil já conta com uma população prisional de mais de 428 mil presos (quase meio milhão de pessoas). Nos últimos quatro anos, com recursos do Fundo Penitenciário Nacional (FUNPEN), foram criadas mais de 22,7 mil vagas no sistema prisional. Mas não foram preenchidas vagas em número igual com jovens da população negra e indígena nas escolas técnicas!
E o que pensar quando temos a informação de que o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (PRONASCI) deverá criar 46,8 mil novas vagas nos presídios e penitenciaria (41,3 mil para homens e 5,5 mil para mulheres) até 2011!
Assim como há 120 anos atrás, hoje os debates envolvem os “anti-cotas” por parte da mesma elite temerária quando se exigia indenização do estado pelos prejuízos causados por uma “liberdade” de faz-de-conta. A mesma elite repugnante que, hoje, é contra as cotas, contra qualquer ascensão para a população secularmente submetida ao julgo dos dominantes. Se naquela época tínhamos o a elite repugnante, assustada, temida que usava os jornais para manifestar suas posições anti-abolicionistas , temos hoje o monopólico da midiático racista que nos bombardeia de várias formas, desde a preocupação com nossas características físicas até o barulho do berimbau que fere os ouvidos mais sensíveis da “fina flor” da hipocrisia da elite baiana e alhures!
*Presidente da Fala Preta Organização de Mulheres Negras
Membro do Forum Nacional de Mulheres Negras
Membro do Forum Nacional de Direitos Humanos

Reunião de Planejamento 2008.2
















quarta-feira, 14 de maio de 2008

A Mulher Negra Guerreira está morta...

Há poucas horas, enquanto lutava com a realidade de ser humana e não um mito, a mulher negra guerreira faleceu.
Fontes médicas afirmam que ela morreu de causas naturais, mas os que a conheceram sabem que ela morreu por ficar em silêncio quando deveria ter gritado; por sorrir quando deveria ter liberado sua fúria; e por esconder sua doença para não incomodar a ninguém com sua dor. Ela morreu de overdose de gente em suas costas quando não tinha energia nem para si mesma. Ela morreu de tanto amar homens que não amavam a eles próprios e que a única coisa que lhe davam em troca era um reflexo distorcido. Ela morreu por criar filhos sozinha e por não poder fazer todo o serviço. Ela morreu por causa das mentiras sobre a vida, os homens e racismos que sua avó contou à sua mãe e sua mãe lhe contou. Ela morreu por ser sexualmente molestada quando criança e por ter que carregar a verdade consigo pelo resto da vida, trocando sempre a humilhação por culpa. Ela morreu de tanto ser espancada por alguém que dizia amá-la, e ela permitia que o espancamento continuasse para mostrar que também amava esse alguém. Ela morreu de asfixia, cuspindo sangue por causa dos segredos que guardava tentando abafá-los em vez de se permitir a crise de nervos que lhe era de direito – mas que só as mulheres brancas podem se dar ao luxo de ter. Ela morreu de tanto ser responsável, porque ela era o último degrau de uma escada sem apoios e não havia ninguém que pudesse ampará-la. A mulher negra guerreira está morta. Morreu por causa dos tantos partos de crianças que ela na verdade nunca quis, mas que a moral estranguladora dos que a cercam obrigou-a a ter. Ela morreu por ter sido mãe aos 15, avó aos 30 e um antepassado aos 45. Ela morreu por ter sido derrubada e tiranizada por mulheres não-evoluídas que se diziam sisters, companheiras. Ela morreu por fingir que a vida que levava no século XXI era um momento Kodak e não um pesadelo pós-escravidão. Ela morreu por tolerar qualquer zé mané só para ter um homem em casa.
Ela morreu por falta de orgasmos, porque nunca soube de suas reais capacidades. Ela morreu por causa dos joelhos dolorosamente comprimidos um contra o outro, porque respeito nunca fez parte das preliminares sexuais que lhe eram impostas. Ela morreu por causa da solidão nas salas de parto e abandono nas clínicas de aborto. Ela morreu por causa da comoção nos tribunais onde sentava-se, sozinha, vendo seus filhos serem legalmente linchados. Ela morreu nos banheiros com as veias irreversivelmente abertas pelo descaso geral e pelo ódio que sentia por si mesma. Ela teve morte cerebral combatendo a vida, o racismo, os homens, enquanto seu corpo era arrastado para um matadouro humano para ser espiritualmente mutilado. E algumas vezes quando se recusou a morrer, quando apenas se recusou a entregar os pontos, ela foi assassinada pelas imagens fatais de cabelos loiros, olhos azuis e bundas chapadas, quando foi rejeitada pelos Pelés, Djavans e Ronaldinhos da vida. Às vezes, ela era arrastada para a morte pelo racismo e pelo sexismo, executada pela ignorância hi-tech enquanto carregava a família na barriga, a comunidade na cabeça, e a raça nas costas. A escandalosa mulher guerreira sem voz está morta!!!!!! Ou Ela Está Viva, E Se Mexendo?????? Eu sei que eu ainda estou aqui. E você? Está se sentindo viva? Companheira... cuide-se! (tradução do texto The Strong Black Woman is Dead, de autora desconhecida) Lista de discussão do Projeto PIMNDHESC

Omissão Feminina


Omissão Feminina


VOU ABRIR A MINHA BOCA
VOU ABRIR O MEU CORAÇÃO
NÃO VOU DEIXAR MINHA MENTE LOUCA
PECANDO COM MINHA OMISSÃO

Amiga eu te compreendo
Saiba de verdade te entendo
Sou Mulher sou Feminina
Mas não vou deixar meu nome ir pra medida

Se mulher é a que mais sente
Logo se entende que é a que mais pensa
Não se prende nas diferenças
Mas nas emergências, mas nas emergências.


Meire Luce, Estudante da UCSAL, 1° semestre.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

CAMAÇARI, REALIZA O 1º Encontro de Negras e Negros

O Coletivo Feminista MARIAS, saúda todas as irmãs e irmãos Negras e Negros, do município de Camaçari. Para nos esse é mais uma oportunidade de estarmos juntas e juntos na construção de um novo modelo de políticas sociais para o nosso município.
O Movimento Negro de Camaçari a partir da nova concepção de esquerda democrática e popular que se estourou nesse município ganhou notoriedade no cenário político, e isso se manifesta com varias ações pautada deste a primeira conferência municipal de Políticas de Promoção da Igualdade Racial.
Podemos sinalizar algumas vitórias e avanços como: O reconhecimento e titulação da Comunidade Quilombola de Cordoaria. Resgatando a Identidade e dignidade da população nativa do local. A criação de um Observatório de Combate a Discriminação Racial, Violência Contra a Mulher e Homofobia que funcionou pela primeira vez durante o Camafolia a finalidade desse mecanismo de intervenção e importante recurso de combate a crimes de ordem; Racistas, Machistas, Sexistas e Homofobias são de denunciar e coibir crimes contra a pessoa humana. Ações nas escolas municipais com o objetivo de implementar a Lei Federal 10.639/2003, que inclui no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática História e Cultura Afro-Brasileira.
A cara do nosso povo começa a ter visibilidade em um projeto visual inovador que deixa em evidencia a pluralidade presente em nossa cidade. A Beleza Negra é reconhecida em materiais publicitários de boas vindas e de saída da cidade. Não se vê mais pessoas com perfis europeus nas peças de publicidade, o que se vê é a cara da nossa gente, contribuindo com o processo do resgate de nossa auto – estima e cidadania. Um Jovem Negro dando as boas vindas, e também uma Mulher Mãe Negra, afagando seu filho. É importante salientar que todos são moradores da cidade. Temos continuar como tarefa a superar o velho contraste social que o Povo Negro de Camaçari foi vitima. Chegou à hora do nosso povo ocupar e participar do exercício e dos espaços de poder.

Poder para o Povo Preto!

Juventude Negra tem a maioria da votação das Prioridades na 1° Conferência Nacional de Juventude.

A Juventude Negra teve a maior votação das prioridades foram 634 votos para que seja reconhecido e aplicado, pelo poder público, transformando em políticas públicas de Juventude as resoluções do 1º Encontro Nacional de Juventude Negra (ENJUNE), priorizando as mesmas como diretrizes étnico/raciais de/para/com as Juventudes. O 1º Encontro Nacional de Juventude Negra aconteceu na cidade de Lauro de Freitas, no bairro de Itinga entre os dias 27,28 e 29 de Julho de 2007. O ENJUNE contou com a participação 600 jovens de todo o país e foi um marco para a Juventude Negra Brasileira, e desse marco foi criado a Fórum Nacional de Juventude Negra que está presente em todos os estados Brasileiros. Aqui na Bahia o Fórum Baiano de Juventude Negra é coordenado pela Jovem Carla Akotirene e Elder Costa. O Coletivo Feminista MARIAS compõe o Fórum Baiano de Juventude Negra discutindo as questões de Feminismo e Diversidade Sexual.

Nós, Mulheres Brasileiras, não queremos que "la Prelatura del Opus Dei" defina nossas VIDAS e nossos desejos

Resposta ao Jornal ATARDE
Por: Cecília Sardenberg

Em julho de 2004, durante a realização da I Conferência Nacional de Políticas para Mulheres, duas mil mulheres, representantes de cerca de outras 300.000 que participaram das Conferências Municipais e Estaduais em todo o país, aprovaram a Legalização do Aborto voluntário no Brasil e sua inclusão no Plano Nacional de Políticas para Mulheres. Uma significativa e histórica vitória das Mulheres Brasileiras, em defesa de sua autonomia e pelo livre direito de escolha.
Essa decisão foi reafirmada na II Conferência Nacional de Políticas para Mulheres em agosto de 2007, por cerca de três mil delegadas presentes.
Vários setores conservadores vêm se articulando para impedir a consolidação dessa grande conquista das Mulheres Brasileiras. Grande parte dessas forças está vinculada a igrejas e religiões, notadamente patriarcais, como é o caso da Igreja Católica, que há mais de dois milênios, sempre sob o domínio dos homens, prega e contribui para a subordinação das mulheres e para o controle do exercício da sua sexualidade, desrespeitando os direitos reprodutivos e sexuais das mulheres, arduamente conquistados.
De fato, nesses últimos anos, aqui no Brasil, setores da Igreja Católica vem-se utilizando os mais diversos ardis, não apenas para impedir que nós, mulheres, desfrutemos desses direitos - a exemplo das muitas tentativas por todo país de proibir, por vias jurídicas e legislativas inconstitucionais, a distribuição da chamada "pílula do dia seguinte" - mas, principalmente, para continuar criminalizando a interrupção da gravidez, valendo-se, para tanto, de estratégias espúrias e condenáveis, como aconteceu recentemente no Rio de Janeiro, com a distribuição de fetos de plástico nas missas de domingo com a finalidade de chocar os "fiéis". A matéria assinada pelo jornalista Carlos Alberto Di Franco, publicada na página editorial do Jornal A Tarde de 5/5/2008, segue por esse caminho. Nesse artigo, sob o título "Banalização da Vida", Di Franco vale-se, vergonhosa e despudoradamente, da trágica morte da menina Isabella, que tem chocado a todas e todos nós, com o intuito de ganhar a opinião pública pela condenação ao aborto, assim afirmando: "... para a lógica pró-aborto, Isabella pode ser morta e jogada fora com as bênçãos do Estado, desde que esteja ainda no ventre materno." E continua: "Isabella é uma pessoa. Um embrião e um feto são também uma pessoa, tanto do ponto de vista científico como filosófico." Afirma ele, ainda, que "é falsa a afirmação que o feto faz parte do corpo da mãe". Para ele, nós, mulheres, não passamos de "hospedeiras." Deve ser por isso mesmo – afinal, que importância têm meras hospedeiras? - que o referido autor banaliza a vida das mulheres, não levando em consideração as altas taxas de mortalidade materna registradas no país e na Bahia, em particular, por conta do aborto clandestino. Argumenta ele que embora exista suporte científico para legitimar o status do embrião e feto como "pessoa", a questão se desloca para o plano jurídico efilosófico. Fala ele, aliás, de uma "ética filosófica", esquecendo-se que se trata, pois, de um valor que não é absoluto e sim, historicamente construído – e que historicamente, tal construção tem se valido de uma "ética filosófica" patriarcal, imbuída de uma moral religiosa, que não cabe em um Estado constitucionalmente "laico".Mas há de se compreender porque o Sr. Di Franco assim procede. Ele é consultor em "estratégia de mídia", com doutorado pela Universidade de Navarra, conhecidainstituição criada por St. Josemaría Escrivá de Balaguer, um dos criadores da Opus Dei, organização que tem se mostrado inimiga das mulheres. Aliás, na página da internet dessa universidade, consta que "la Prelatura del Opus Dei presta los medios espirituales y pastorales necesarios para que la Universidad pueda mantener y desarrollar su identidad cristiana."Ora, nós, mulheres brasileiras, não queremos que "la Prelatura del Opus Dei" defina nossas vidas e nossos desejos. Queremos, sim, a implementação do PlanoNacional de Políticas para Mulheres e, com ele, a legalização da interrupção voluntária da gravidez, para que cada uma de nós possa decidir sobre nossopróprio corpo.
Cecília Sardenberg
Diretora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobrea Mulher – NEIM/UFBA

Alisando o Nosso Cabelo

Alisando o Nosso Cabelo
BELL HOOKS


Apesar das diversas mudanças na política racial, às mulheres negras continuam obcecadas com os seus cabelos, e o alisamento ainda é considerado um assunto sério. Insistem em se aproveitar da insegurança que nós mulheres negras sentimos com respeito a nosso valor na sociedade de supremacia branca!

Nas manhãs de sábado, nos reuníamos na cozinha para arrumar o cabelo, quer dizer, para alisar os nossos cabelos. Os cheiros de óleo e cabelo queimado misturavam-se com os aromas dos nossos corpos acabados de tomar banho e o perfume do peixe frito.
Não íamos ao salão de beleza. Minha mãe arrumava os nossos cabelos. Seis filhas: não havia a possibilidade de pagar cabeleireira. Naqueles dias, esse processo de alisar o cabelo das mulheres negras com pente quente (inventado por Madame C. J. Waler) não estava associado na minha mente ao esforço de parecermos brancas, de colocar em prática os padrões de beleza estabelecidos pela supremacia branca. Estava associado somente ao rito de iniciação de minha condição de mulher. Chegar a esse ponto de poder alisar o cabelo era deixar de ser percebida como menina (a qual o cabelo podia estar lindamente penteado e trançado) para ser quase uma mulher. Esse momento de transição era o que eu e minhas irmãs ansiávamos.
Fazer chapinha era um ritual da cultura das mulheres negras, um ritual de intimidade. Era um momento exclusivo no qual as mulheres (mesmo as que não se conheciam bem) podiam se encontrar em casa ou no salão para conversar umas com as outras, ou simplesmente para escutar a conversa. Era um mundo tão importante quanto à barbearia dos homens, cheia de mistério e segredo.
Tínhamos um mundo no qual as imagens construídas como barreiras entre a nossa identidade e o mundo eram abandonadas momentaneamente, antes de serem reestabelecidas. Vivíamos um instante de criatividade, de mudança.
Eu queria essa mudança mesmo sabendo que em toda a minha vida me disseram que eu era "abençoada" porque tinha nascido com "cabelo bom" – um cabelo fino, quase liso –, não suficientemente bom, mais ainda assim era bom. Um cabelo que não tinha o "pé na senzala", não tinha carapinha, essa parte na nuca onde o pente quente não consegue alisar. Mas esse "cabelo bom" não significava nada para mim quando se colocava como uma barreira ao meu ingresso nesse mundo secreto da mulher negra.
Eu regozijei de alegria quando a minha mãe finalmente decretou que eu poderia me somar ao ritual de sábado, não mais como observadora, mas esperando pacientemente a minha vez. Sobre este ritual escrevi o seguinte:

Para cada uma de nós, passar o pente quente é um ritual importante. Não é um símbolo de nosso anseio em tornar-nos brancas. Não existem brancos no nosso mundo íntimo. É um símbolo de nosso desejo de sermos mulheres.
É um gesto que mostra que estamos nos aproximando da condição de mulher [...] Antes que se alcance a idade apropriada, usaremos tranças; tranças que são símbolo de nossa inocência, juventude, nossa meninice. Então, as mãos que separam, penteiam e traçam nos confortam. A intimidade e a sina nos confortam.
Existe uma intimidade tamanha na cozinha aos sábados quando se alisa o cabelo, quando se frita o peixe, quando se fazem rodadas de refrigerante, quando a música soul flutua sobre a conversa.
É um instante sem os homens. Um tempo em que trabalhamos como mulheres para satisfazer umas as necessidades das outras, para nos proporcionarmos um bem-estar interior, um instante de alegrias e boas conversas.

Levando em consideração que o mundo em que vivíamos estava segregado racialmente, era fácil desvincular a relação entre a supremacia branca e a nossa obsessão pelo cabelo. Mesmo sabendo que as mulheres negras com cabelo liso eram percebidas como mais bonitas do que as que tinham cabelo crespo e/ou encaracolado, isso não era abertamente relacionado com a idéia de que as mulheres brancas eram um grupo feminino mais atrativo ou de que seu cabelo liso estabelecia um padrão de beleza que as mulheres negras estavam lutando para colocar em prática.
Esse momento é um marco histórico e ideológico do qual emergiu o processo de alisamento do cabelo de mulheres negras. Esse processo foi ampliado de maneira tal que estabeleceu um espaço real de formação de íntimos vínculos pessoais da mulher negra mediante uma experiência ritualística compartilhada.
O salão de beleza era um espaço de aumento da consciência, um espaço em que as mulheres negras compartilhavam contos, lamúrias, atribulações, fofocas – um lugar onde se poderia ser acolhida e renovar o espírito.
Para algumas mulheres, era um lugar de descanso em que não se teria de satisfazer as exigências das crianças ou dos homens. Era a hora em que algumas teriam sossego, meditação e silêncio. Entretanto, essas implicações positivas do ritual do alisamento do cabelo ponderavam, mas não alteravam as implicações negativas. Essas existiam concomitantemente.
Dentro do patriarcado capitalista – o contexto social e político em que surge o costume entre os negros de alisarmos os nossos cabelos –, essa postura representa uma imitação da aparência do grupo branco dominante e, com freqüência, indica um racismo interiorizado, um ódio a si mesmo que pode ser somado a uma baixa auto-estima.
Durante os anos 1960, os negros que trabalhavam ativamente para criticar, desafiar e alterar o racismo branco, sinalavam a obsessão dos negros com o cabelo liso como um reflexo da mentalidade colonizada. Foi nesse momento em que os penteados afros, principalmente o black, entraram na moda como um símbolo de resistência cultural à opressão racista e fora considerado uma celebração da condição de negro(a).
Os penteados naturais eram associados à militância política. Muitos(as) jovens negros(as), quando pararam de alisar o cabelo, perceberam o valor político atribuído ao cabelo alisado como sinal de reverência e conformidade frente às expectativas da sociedade.
Entretanto, quando as lutas de libertação negra não conduziram à mudança revolucionária na sociedade, não se deu mais tanta atenção à relação política entre a aparência e a cumplicidade com o segregacionismo branco, e aqueles que outrora ostentavam os seus blacks começaram a alisar o cabelo.
Sem ficar atrás dessa manobra para suprimir a consciência negra e os esforços das pessoas negras por serem sujeitos que se autodefinem, as empresas brancas começaram a reconhecer os negros, e de maneira especialíssima, às mulheres negras, como consumidoras potenciais de produtos que poderiam ser subministrados, incluindo aqueles para os cuidados com o cabelo. Permanentes especialmente concebidos para as mulheres negras eliminaram a necessidade do pente quente e da chapinha. Esses permanentes não só custavam mais caro, mas também levavam todas as economias e ganâncias das comunidades negras, especificamente dos bolsos das mulheres negras que anteriormente colhiam benefícios materiais (ver Como o Capitalismo Desenvolveu a América Negra, de Manning Marable, South End Pree).
O contexto do ritual havia desaparecido, não haveria mais a formação de vínculos íntimos e pessoais entre as mulheres negras. Sentadas embaixo de secadores barulhentos, as mulheres negras perderam um espaço para o diálogo, para a conversa criativa.
Desposadas desses rituais de formação de íntimos vínculos pessoais positivos, que rodeavam tradicionalmente a experiência, o alisamento parecia cada vez mais um significante da opressão e da exploração da ditadura branca.
O alisamento era claramente um processo no qual as mulheres negras estavam mudando a sua aparência para imitar a aparência dos brancos. Essa necessidade de ter a aparência mais parecida possível à dos brancos, de ter um visual inócuo, está relacionada com um desejo de triunfar no mundo branco. Antes da integração, os negros podiam se preocupar menos sobre o que os brancos pensavam sobre o seu cabelo.
Em discussão sobre a beleza com mulheres negras em Spelman College , as estudantes falavam sobre a importância de ter o cabelo liso quando se procura um emprego. Estavam convencidas, e provavelmente com toda a razão, de que sua oportunidade de encontrar bons empregos aumentaria se tivessem cabelo alisado. Quando se pediam mais detalhes sobre essa assertiva, essas mulheres se concentravam na conexão entre as políticas radicais e os penteados naturais, seja com ou sem tranças. Uma jovem que tinha o cabelo natural e curto falava até mesmo em comprar uma peruca de cabelo liso e comprido na hora de procurar emprego.
Nenhuma das participantes pensava na possibilidade de que nós mulheres negras éramos livres para usar os nossos cabelos naturais sem refletir sobre as possíveis conseqüências negativas. Com freqüência, os adultos negros, os mais velhos, especialmente os pais, respondiam negativamente aos penteados naturais. Contei ao grupo que, quando cheguei em casa com o cabelo trançado logo após conseguir um emprego em Yale, os meus pais me disseram que eu tinha um aspecto desagradável.
Apesar das diversas mudanças na política racial, as mulheres negras continuam obcecadas com os seus cabelos, e o alisamento ainda é considerado um assunto sério. Por meio de diversas práticas insistem em se aproveitar da insegurança que nós mulheres negras sentimos a respeito de nosso valor na sociedade de supremacia branca. Conversando com grupos de mulheres em diversas cidades universitárias e com mulheres negras em nossas comunidades, parece haver um consenso geral sobre a nossa obsessão com o cabelo, que geralmente reflete lutas contínuas com a auto-estima e a auto-realizaçã o. Falamos sobre o quanto as mulheres negras percebem seu cabelo como um inimigo, como um problema que devemos resolver, um território que deve ser conquistado. Sobretudo, é uma parte de nosso corpo de mulher negra que deve ser controlado. A maioria de nós não foi criada em ambientes nos quais aprendêssemos a considerar o nosso cabelo como sensual, ou bonito, em um estado não processado. Muitas de nós falamos de situações nas quais pessoas brancas pedem para tocar o nosso cabelo natural e demonstram grande surpresa quando percebem que a textura é suave ou agradável ao toque.
Aos olhos de muita gente branca e outras não negras, o black parece palha de aço ou um casco. As respostas aos estilos de penteado naturais usados por mulheres negras revelam comumente como o nosso cabelo é percebido na cultura branca: não só como feio, como também atemorizante. Nós tendemos a interiorizar esse medo.O grau em que nos sentimos cômodas com o nosso cabelo reflete os nossos sentimentos gerais sobre o nosso corpo.
Em nosso grupo de apoio de mulheres negras, Irmãs do Yam, conversávamos sobre como não gostávamos de nossos corpos, especialmente nossos cabelos. Sugeri ao grupo que considerássemos o nosso cabelo como se ele não fizesse parte do nosso corpo, mas que se percebesse como algo separado, de novo um território que deve ser controlado, domado.
Para mim era importante que fosse vinculada a necessidade de controlar o cabelo com a repressão sexual. Tendo curiosidade sobre o que passavam as mulheres negras que faziam chapinha ou que fizessem amaciamento, permanente ou outras químicas, quando refletiam sobre a relação do cabelo alisado e a prática sexual, perguntei se as pessoas se preocupavam com o cabelo delas, se temiam que seus pares tocassem os seus cabelos. Sempre tive a impressão de que o cabelo alisado chama a atenção pelo desejo de que permaneça no mesmo lugar. Não foi surpreendente que muitas mulheres negras respondessem que se sentiam incomodadas se as pessoas se concentravam e davam muita atenção aos seus cabelos, sentiam como se o seu cabelo estivesse desordenado, fora de controle. Isso porque aquelas de nós que já liberaram o seu cabelo e deixamos que ele se movimente na direção que ele queira, freqüentemente, recebemos comentários negativos.
Olhando fotografias de mim mesma e das minhas irmãs de quando tínhamos o cabelo alisado no segundo grau, percebi que parecíamos ter mais idade do que quando deixamos o cabelo natural. É irônico viver em uma cultura que enfatiza tanto a necessidade das mulheres serem ou parecerem jovens, mas por outro lado incentiva as mulheres negras a mudarem os seus cabelos de maneira tal que parecemos ser mais velhas.
No último semestre, estávamos lendo O Olho mais azul, de Toni Morrison, em uma aula de Literatura. Pedi aos estudantes que escrevessem textos autobiográficos, que refletissem sobre o que eles pensavam sobre a relação entre raça e beleza física. Uma grande maioria das mulheres negras escreveu sobre os seus cabelos. Quando eu perguntei isoladamente a algumas delas porque continuavam alisando o cabelo, muitas atestaram que os penteados naturais não ficavam bonitos nelas, ou que demandavam muito trabalho. Emily, uma das minhas favoritas, de cabelo curto sempre alisava, e eu lhe questionava e desafiava, até que ela me explicou de maneira muito convincente que um penteado natural ficaria horrível no seu rosto, que ela não tinha a fronte nem a estrutura óssea apropriada.
No semestre seguinte, nos reencontramos e ela me contou que durante as férias tinha ido ao salão fazer o permanente e, enquanto esperava, pensou sobre as leituras e as discussões de sala de aula e percebeu que estava realmente muito incomodada e amedrontada com a idéia de que as pessoas achassem que ela não seria mais atraente se não alisasse o cabelo. Reconheceu que esse medo estava enraizado nos sentimentos de baixa auto-estima. Decidiu fazer uma mudança e se surpreendeu, pois estava linda e muito atraente. Conversamos bastante sobre como dói perceber a relação entre a opressão racista e os argumentos que usamos para convencer a nós mesmas e aos outros de que não somos belos ou aceitáveis como somos.
Em inúmeras discussões com mulheres negras sobre o cabelo, ficou constatado um manifesto de que um dos fatores mais poderosos que nos impedem de usarmos o cabelo sem química é o temor de perder a aprovação e a consideração das outras pessoas. As mulheres negras heterossexuais falaram sobre o quanto os homens negros respondem de forma mais favorável quando se tem um cabelo liso ou alisado. Entre as homossexuais, muitas afirmam que não alisavam o cabelo por uma reflexão de que esse gesto estaria vinculado à heterossexualidade e à necessidade de aprovação do macho.
Lembro-me de ter visitado uma amiga com seu par, um homem negro, em Nova York , faz anos, e tivemos uma intensa discussão sobre o cabelo. Ele se encarregou de me dizer que eu poderia ser uma irmã excelente (bonita) se fizesse algo ("dar um jeito") com o meu cabelo. Por dentro pensei que a minha mãe o tinha contratado. O que me lembro é do espanto quando com calma e entusiasmo garanti que eu gostava do tato no cabelo não processado.
Quando os estudantes lêem sobre raça e beleza física, várias mulheres negras descrevem fases da infância em que estavam atormentadas e obcecadas com a idéia de ter cabelos lisos, já que estavam tão associados à idéia de essas serem desejadas e amadas. Poucas mulheres receberam apoio de suas famílias, amigos(as) e parceiros(as) amorosos(as) quando decidiam não alisar mais o cabelo. E temos várias histórias para contar sobre os conselhos recebidos de todo o mundo, até mesmo de pessoas completamente estanhas, que se sentem gabaritadas para atestar que parecemos mais bonitas se "arrumamos" (alisamos) o cabelo.
Quando eu ia para a minha entrevista de emprego em Yale, conselheiras brancas que nunca haviam feito nenhum comentário sobre o meu cabelo me animaram para que eu não usasse tranças ou um penteado natural grande (black) na entrevista. Elas não disseram "alisa o seu cabelo", sugeriam que eu mudasse o meu estilo de cabelo de modo tal que parecesse ao máximo ao cabelo delas, indicando certo conformismo. Usei tranças e ninguém pareceu notar. Quando fui contratada, não perguntei se importava ou não que eu usasse tranças. Conto essa história aos meus alunos para que saibam que nem sempre temos de renunciar a nossa capacidade de ser pessoas que se autodefinem para ter sucesso no emprego.
Já percebi que o meu estilo de cabelo às vezes incomoda os estudantes durante as minhas conferências. Certa vez, em uma conferência sobre mulheres negras e liderança, entrei em um auditório repleto com o meu cabelo sem química, fora de controle e desordenado. A grande maioria das mulheres negras que ali estavam tinham o cabelo alisado. Muitas delas foram hostis com olhares de desdém. Senti como se estivesse sendo julgada, como uma marginal, indesejável. Tais julgamentos se fazem especialmente direcionado às mulheres negras nos Estados Unidos que resolvem usar dreads. São consideradas, com toda razão, da antítese do alisamento, o que torna o seu estilo uma decisão política. Freqüentemente, as mulheres negras expressam desprezo por aquelas de nós que escolhemos essa aparência.
Curiosamente, ao mesmo tempo em que o cabelo natural é um motivo de desatenção e desdém, somos testemunhas da volta da moda das pinturas, mechas loiras, cabelo comprido. Em seus escritos, minhas alunas negras descreveram o uso de mechas amarelas em suas cabeças quando eram meninas, para fingir ter o cabelo comprido e loiro. Recentemente as cantoras que estão trabalhando para ser atrativas para a platéia branca, para serem consideradas como artistas que ampliaram o público, usam implantes e apliques para conseguir cabelos compridos e lisos. Parece haver um nexo definido entre a popularidade de uma artista negra com auditórios brancos e o grau em que ela trabalha para parecer branca, ou para encarnar aspectos do estilo branco. Tina Tuner e Aretha Franklin foram percussoras dessa tendência, as duas pintavam o cabelo de loiro. Na vida cotidiana vemos cada vez mais mulheres usando cada vez mais químicas para ter cabelo liso e loiro.
Em uma de minhas conversas que se concentravam na construção social da identidade da mulher negra dentro de uma sociedade sexista e racista, uma mulher negra veio até mim no final da discussão e me contou que sua filha de sete anos de idade estava deslumbrada com a idéia do cabelo loiro, de tal forma que ela havia feito uma peruca que imitava os cachinhos dourados. Essa mãe queria saber o que estava fazendo de errado em sua tutela, já que sua casa era um lugar onde a condição de negro era afirmada e celebrada. Mas ela não havia considerado que o seu cabelo alisado era uma mensagem para a sua filha: nós mulheres negras não somos aceitas a menos que alteremos nossa aparência ou textura do cabelo.
Recentemente conversei com uma de minhas irmãs mais novas sobre o seu cabelo. Ela usa tintura de cores berrantes em diversos tons de vermelho. No que lhe diz respeito, essas escolhas de cabelo pintado e alisado estavam diretamente relacionadas com sentimentos de baixa auto-estima. Ela não gosta dos seus traços e acredita que o estilo de cabelo transforma a sua fisionomia. O que eu percebia era que a escolha dela na realidade chamava mais atenção para a sua fisionomia e era tudo o que ela pretendia ocultar.
Quando ela comentou que com essa aparência ela recebia mais atenção e elogios, sugeri que a reação positiva podia ser resposta direta da sua própria projeção de um alto nível de auto-satisfaçã o. As pessoas podem estar respondendo a isso e não à tentativa de ocultar ou mascarar o seu fenótipo. Conversamos sobre as mensagens que estava mandando para as suas filhas de pele escura: que elas certamente seriam aceitas se alisassem os seus cabelos!
Certo número de mulheres afirmou que essa é uma estratégia de sobrevivência: é mais fácil de funcionar nessa sociedade com o cabelo alisado. Os problemas são menores; ou, como alguns dizem, "dá menos trabalho" por ser mais fácil de controlar e por isso toma menos tempo. Quando respondi a esse argumento em uma discussão em Spelman College , sugeri que talvez o fato de gastar tempo com nós mesmas cuidando de nossos corpos é também um reflexo de uma sensação de que não é importante ou de que nós não merecemos tal cuidado. Nesse grupo e em outros, as mulheres negras falavam de ter sido criadas em famílias que ridicularizavam ou consideravam desperdício gastar muito tempo com a aparência.
Independentemente da maneira como escolhemos individualmente usar o cabelo, é evidente que o grau em que sofremos a opressão e a exploração racistas e sexistas afeta o grau em que nos sentimos capazes tanto de auto-amor quanto de afirmar uma presença autônoma que seja aceitável e agradável para nós mesmas. As preferências individuais (estejam ou não enraizadas na autonegação) não podem escamotear a realidade em que nossa obsessão coletiva com alisar o cabelo negro reflete psicologicamente como opressão e impacto da colonização racista.
Juntos racismo e sexismo nos recalcam diariamente pelos meios de comunicação. Todos os tipos de publicidade e cenas cotidianas nos aferem a condição de que não seremos bonitas e atraentes se não mudarmos a nós mesmas, especialmente o nosso cabelo. Não podemos nos resignar se sabemos que a supremacia branca informa e trata de sabotar nossos esforços por construir uma individualidade e uma identidade.
Como nas lutas organizadas que aconteceram nos anos 1960 e princípios da década de 1970, as mulheres negras, como indivíduos, devemos lutar sozinhas por adquirir a consciência crítica que nos capacite para examinar as questões de raça e beleza e pautar nossas escolhas pessoais de um ponto de vista político.
Existem momentos em que penso em alisar o meu cabelo só por capricho, aí me lembro que, mesmo que esse gesto pudesse ser simplesmente festivo para mim, uma expressão individual de desejo, eu sei que gesto semelhante traria outras implicações que fogem ao meu controle. A realidade é que o cabelo alisado está vinculado historicamente e atualmente a um sistema de dominação racial que é incutida nas pessoas negras, e especialmente nas mulheres negras de que não somos aceitas como somos porque não somos belas.
Fazer esse gesto como uma expressão de liberdade e opção individual me faria cúmplice de uma política de dominação que nos fere. É fácil renunciar a essa liberdade. É mais importante que as mulheres façam resistência ao racismo e ao sexismo que se dissemina pelos meios de comunicação, e tratarem para que todo aspecto da nossa auto-representaçã o seja uma feroz resistência, uma celebração radical de nossa condição e nosso respeito por nós mesmas.
Mesmo não tendo usado o cabelo alisado por muito tempo, isso não significa que eu era capaz de desfrutar ou realmente apreciar meu cabelo em estado natural. Durante anos, ainda considerava isso um problema. Ele não era natural o suficiente, crespo o necessário para fazer um black interessante e decente, o cabelo era muito fino. Essas queixas expressavam a minha continua insatisfação. A verdadeira liberação do meu cabelo veio quando parei de tentar controlar em qualquer estado e o aceitei como era.
Só há poucos anos é que deixei de me preocupar com o quê os outros possam dizer sobre o meu cabelo. Só nesses últimos anos foi que eu sentir consecutivamente o prazer lavando, penteando e cuidando do meu cabelo. Esses sentimentos me lembram o aconchego e o deleite que eu sentia quando menina, sentada entre as pernas de minha mãe, sentindo o calor do seu corpo e do seu ser enquanto ela penteava e trançava o meu cabelo.
Em uma cultura de dominação e antiintimidade, devemos lutar diariamente por permanecer em contato com nos mesmos e com os nossos corpos, uns com os outros. Especialmente as mulheres negras e os homens negros, já que são nossos corpos os que freqüentemente são desmerecidos, menosprezados, humilhados e mutilados em uma ideologia que aliena. Celebrando os nossos corpos, participamos de uma luta libertadora que libera a mente e o coração.



Revista Gazeta de Cuba – Unión de escritores y Artista de Cuba, janeiro-fevereiro de 2005. Tradução do espanhol: Lia Maria dos Santos.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Lésbicas evitam ir ao ginecologista

Lésbicas evitam ir ao ginecologista - 05/05/2008
Mulheres Lésbicas e Bissexuais sentem-se inibidas em procurar ajuda doginecologista. Embora não seja possível estimar quantas não vão aosconsultórios, o movimento de LESBICAS queixa-se sobre afalta de um espaço adequado para falar sobre sua sexualidade. Muitassaem dos consultórios com recomendações para usar pílulasanticoncepcionais ou camisinha masculina. Sem informação também achamque só vai ter câncer no colo do útero quem tem relaçõesheterossexuais, por isso não fazem o exame preventivo. Um dos planos do Sistema Único de Saúde (SUS) do Ministério da Saúde é assegurar a assistência ginecológica de qualidade e atenção à saúdeintegral em todas as fases da vida, para as mulheres LÉSBICAS, BISSEXUAIS e TRANSEXUAIS. Para isso, uma das medidas será a inclusãode conteúdos relacionados à população LGBT na formação dosprofissionais da saúde de nível técnico e da graduação, bem comoabordagem do tema nos processos de Educação Permanente em serviço dosprofissionais do SUS."Nem todos os profissionais de saúde estão preparados para lidar sempreconceitos com questões de sexualidade. Alguns sabem pouco sobre avida e as práticas sexuais de MULHERES que transam com MULHERES,"revela Ana Maria Costa, diretora do Departamento de Apoio à GestãoParticipativa do ministério e autora do documento Saúde da Populaçãode, LÉSBICAS, GAYS, BISSEXUAIS, TRAVESTIS e TRANSEXUAIS.O quadro da falta de cuidado vai contra as recomendações do Ministérioda Saúde. "Mesmo que elas não tenham uma relação sexual compenetração, não usem contraceptivos devem consultar-se anualmente comum profissional da área", ressalta Ana Costa.Independente da orientação sexual, o ministério sugere o examepreventivo do câncer de colo de útero a cada três anos para aquelasque têm entre 25 e 59 anos e exames anuais para aquelas com citologiaalterada. A mamografia é recomendada uma vez a cada dois anos, para asentre 50 e 69 anos.Representante das LÉSBICAS no Conselho Nacional de Saúde, Carmen LúciaLuiz, conta que em um encontro de lésbicas no Piauí, onde havia umônibus disponível do Sesc para exame do papanicolau, de 102 mulheresapenas duas fizeram o preventivo."Não sabemos se elas acham que não precisam porque têm relações commulheres, ou se têm medo do espéculo (bico de pato), aparelho usado nopapanicolau. Há muitas questões que envolvem o assunto e ainda nãosabemos quais são", alerta Carmen.Outra sugestão que consta no documento é a inclusão de dados nos formulários do SUS e sistemas de informação sobre a orientação sexuale identidade de gênero para realização de estatísticas e estudos. OSUS também já recomenda que seus profissionais de saúde anotem noprontuário de transexuais o nome social do indivíduo. Um travestichamado Roberto deverá ser chamado pelo nome Roberta, se assim elepreferir. O direito é garantido pela Carta dos Usuários da Saúde doSUS. O tema saúde da população das lésbicas ganha visibilidade durante a 1ªConferencia Nacional de, Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis eTransexuais a ser realizada entre os dias 6 e 8 de junho, em Brasília,sob a organização da Secretaria Nacional de Direitos Humanos daPresidência da República.

Saiba mais no site http://www.conferencianacionalglbt.com.br/
Mais informações
Atendimento ao cidadão 0800 61 1997 ou 61 3315-2425
Atendimento à Imprensa(61) 3315-3580 ou 3315-2351