segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Comunidade LGBT tem acesso a 37 direitos a menos, diz especialista


Sessenta anos após a criação Declaração Universal dos Direitos Humanos, a comunidade LGBT ainda luta por igualdade
Reportagem Juliana Karpinski


“Nós delegadas e delegados, participantes da Confêrencia Nacional de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (LGBT), reunidos em Brasília, entre os dias 5 e 8 de junho de 2008, com o intuito de avaliar e propor estratégias de promoção da cidadania e de combate à violência e a discriminação contra a população LGBT, manifestamos nossa esperança e confiança de conquistarmos um Brasil e um mundo sem nenhum tipo de preconceito e segregação”.

Foi dessa forma que os participantes da Conferencia Nacional LGBT, iniciaram o texto da 'Carta de Brasília'. O encontro, realizado na data da comemoração dos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, teve como objetivo propor políticas públicas e a elaboração do Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos LGBT.

Mas quais são as políticas públicas propostas ou já realizadas para essa comunidade?

O acesso à saúde pública
O anúncio, feito pelo ministro da Saúde José Gomes Temporão, de que o Sistema Único de Saúde (SUS) passará a realizar a cirurgia de mundança de sexo gratuitamente foi considerado um passo a frente nas políticas voltadas para a comunidade LGBT. O presidente do Instituto Paranaense 28 de Junho e vice-presidente da Associação Brasileira dos Gays (Abragay), Roberto Kaiser, relembra que em outros países esse tipo de operação é considerada comum e realizada há bastante tempo. A previsão é de que o serviço esteja disponível já no final deste mês, quando a portaria que institui o atendimento for publicada no Diário Oficial da União. No Brasil, o caso mais famoso é o da cirurgia por que passou Roberta Close. “Ela não nasceu homem, ela já nasceu mulher, mas tinha um problema no meio das pernas que a impedia de ser o que realmente era”, conta Kaiser.
Para o secretário de Estado da Secretaria Especial para Assuntos Estratégicos (Seae), Nizam Pereira, a população LGBT é formada por pessoas como as demais e devem ter acesso a todos os direitos, principalmente o da saúde pública. “Assim como negros, mulheres, pobres e os demais grupos que de uma forma ou outra sofrem discriminação, deve haver medidas direcionadas para os homossexuais”, diz.

Além das necessidades comuns a qualquer cidadão ou cidadã, os militantes da área reivindicam também o atendimento as necessidades consideradas específicas. É o caso do combate a epidemia HIV/Aids, maior cuidado com doenças sexualmente transmissíveis e com a saúde mental, além dos devidos cuidados contra a agressão física. O deputado federal Dr. Rosinha, membro da Frente Parlamentar pela Cidadania LGBT, comenta que recentemente o Ministro da Saúde lançou um programa voltado ao combate da epidemia de HIV/Aids. O programa será desenvolvido em parceria com as entidades que atuam com essa comunidade.

A população LGBT também busca nas políticas públicas a atenção especial à saúde da mulher lésbica e transexual e um cuidado específico para vítimas de violência, incluindo a violência sexual dentro da comunidade e a praticada contra aqueles que estão privados de liberdade. Outras necessidades são a promoção da saúde por meio de ações educativas voltadas a população e a implementação de condições para produção e acesso ao conhecimento científico sobre saúde.
Fim do preconceito é o primeiro passo

O movimento LGBT teve origem no Brasil em 1978. Trinta anos depois, essa parcela da população ainda sofre preconceito e discriminação das mais diversas formas. A violência física ou moral, gerada pela homofobia, é apenas uma das dificuldades enfrentadas por essa comunidade. Para o secretário, o preconceito está diminuindo, aos poucos, graças a sensibilização da sociedade. “Temos que entender que essa minoria, na verdade, é uma maioria”, explica Pereira
Entre os projetos de lei que tramitam no Senado Federal em prol da comunidade LGBT está o Projeto de Lei Complementar nº 122/2006, que altera a Lei nº 7.716, definindo os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero. Segundo o representante da Abragay, várias leis que estão tramitando acabam engavetadas ou embargadas. “As principais barreiras acontecem nas bancadas religiosas, que ainda não aceitam a homossexualidade”, diz Kaiser.
Falta segurança

Dados da Associação Brasileira de Gays, Lesbicas e Transexuais (ABGLT), demonstram que, em 2007, foram assassinados cerca de 2.800 homossexuais. Só no Estado do Paraná foram 135 casos. Kaiser explica que a Secretaria de Segurança Pública se comprometeu com o cumprimento de medidas que alteram a forma como a segurança da comunidade é tratada. “Várias das políticas públicas voltadas para a segurança da comunidade LGBT, foram discutidas para serem trabalhadas no Paraná a partir da Conferência Estadual e elas serão cobradas dos nossos governantes”, afirma.

Rosinha afirma desconhecer a existência de políticas públicas na área de segurança voltada para esta comunidade, mas defende a necessidade. “A sociedade precisa de uma pública mais consistente de segurança, que conste, entre outros, os seguintes itens: mais investimentos em educação, cultura e esportes”, comenta o parlamentar. Para ele, a maior violência contra comunidade LGBT acontece por que ela é vítima de preconceito, portanto se faz necessário o combate e criminalização da homofobia com a aprovação do projeto de lei que tramita no Senado Federal.

A população LGBT ainda luta por um reforço na implantação dos centros de referência contra a discriminação e garantia de efetividade para atendimentos às vítimas de homofobia. Necessitam também de uma consolidação das pesquisas e estatísticas sobre os tipos de crimes de violência e preconceito praticados e buscam a possibilidade de convidar membros qualificados da militância para palestrar nas acadêmias e centros de formação de policiais, bombeiros e guardas municipais. O objetivo é promover o diálogo entre os dois setores e sensibilizar os profissionais de segurança para as demandas desse grupo.
E o que mais ainda falta?

Para Conselheiro de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) Dálio Zippin Filho, o grupo formado por gays, lésbicas, travestis e transexuais não reivindica nenhum direito a mais do que aqueles que a população heterossexual tem direito. “Eles querem direitos iguais, pois lhe são negados 37 direitos. Isto caracteriza violação do Princípio de Igualdade estabelecido na Constituição Federal”, afirma.

Entre alguns direitos pelos quais este segmento social luta está a criação de conselhos municipais, estaduais e federais para que os membros da comunidade LGBT possam ajudar e fiscalizar a criação de políticas públicas voltadas para suas necessidades, como já acontece com idosos e usuários do SUS. Para a área da educação, eles reivindicam a implementação de ações que promovam respeito da diversidade de orientação sexual e reconhecimento a identidade de gênero, para que colaborem para a eliminação da homofobia.

Na área da cultura, os militantes acreditam que uma iniciativa eficiente pode ser a criação de espaços, como museus, onde os bens materiais e imateriais que compõe a memória cultural LGBT brasileira podem ser reunidos. Eles reivindicam também maior apoio a eventos com o foco na questão cultural e a incluisão no calendário nacional das datas comemorativas oficiais do movimento LGBT, como os Dias do Orgulho GLBT (28/06), Dia da Visibilidade Lésbica, (29/08) e Dia da Visibilidade Travesti, (29/01).

A maioria que não governa

Valmar Hupsel Filho, do A Tarde

Pelo menos quatro cidades baianas serão, com certeza, administradas por mulheres durante os próximos quatro anos. Em Caraíbas, no Centro-Sul do Estado; Baianópolis, no Extremo Oeste; Dias D‘Ávila e Madre de Deus, ambas na Região Metropolitana de Salvador (RMS), a campanha eleitoral para prefeitura é dominada exclusivamente por nomes femininos.

Nas ruas de Dias D’Ávila, município de 55 mil habitantes localizado a 56 quilômetros da capital, dizem que a política local é dominada extra-oficialmente por um homem, mas candidatos mesmo só ao cargo de vereador. Este ano três mulheres – e nenhum homem – disputam a prefeitura. Uma delas, Andréia Xavier Cajado (DEM), tenta a reeleição. As outras candidatas são Jussara do Nascimento, pelo PTB, e Jeane Morais (PSB), cuja candidata a vice é também uma mulher.

No município de Madre de Deus (63 quilômetros de Salvador), a prefeitura é ocupada por mulheres desde 1997. Este ano a disputa é entre a atual e a ex-prefeita. Para Eranita de Brito (Nita), do DEM, que tenta sua reeleição, a mulher não é melhor nem pior do que os homens quando o assunto é política. “Mas nós levamos vantagem porque temos mais sensibilidade e jeito no contato com as pessoas”. Sua adversária, Carmem Gandarela, do PT, que governou o município por oito anos (1997-2004) concorda. “Qual é a diferença entre o homem e a mulher na prefeitura? Nenhuma. O problema é que antigamente as mulheres não tinham oportunidade”, disse.

Ali perto, em Candeias (56 quilômetros de Salvador), o quadro é semelhante. A prefeitura também é ocupada por mulheres desde 1993 e a disputa é entre a atual e a ex-prefeita. A diferença é que, este ano, há um candidato – sem histórico político na região. Candeias é um dos sete municípios que têm mulheres como maioria entre os candidatos nas eleições majoritárias. Os outros são Araçás, Camacan, Itanagra e Mortugaba, que têm duas mulheres e um homem candidatos; e Barreiras e Cardeal da Silva (3 contra 2).

Contramão - Estes municípios, no entanto, vão na contramão dos dados estaduais e nacionais. Na Bahia, são apenas 141 candidatas contra 1.137 candidatos. As mulheres são 11% do total de candidatos registrados pelo TRE-BA, mesmo sendo a maioria (51,88%) dos eleitores. Os dados do País são semelhantes aos da Bahia. As mulheres são 21,14% do total de candidatos e 51,73% do eleitorado.

A Lei 9.504, de 30 de setembro de 1997, em seu Artigo 10º determina que cada partido ou coligação deverá reservar o mínimo de 30% e máximo de 70% para candidaturas de cada sexo. Mas de acordo com a coordenadora do programa de Pós-Graduação de Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo da Universidade Federal da Bahia, Ana Alice Alcântara Costa, a regulamentação é falha por não prever uma punição aos partidos que a descumprem. “Fica apenas como uma sugestão”, disse.

A professora cita como exemplo países como Ruanda (África), Argentina (América do Sul) e Costa Rica (América Central), onde uma regulamentação mais efetiva garante uma porcentagem de mulheres em cargos eletivos superior a 40%. “Em Costa Rica, por exemplo, o partido é obrigado a indicar mulheres para ocupar cargos e não somente para serem candidatas”, exemplificou Ana Alice.

A pesquisadora considera que ainda é pequena a participação feminina na política. “Isso tem crescido a passos de tartaruga desde a década de 60”, observa. Segundo ela, o motivo seria o preconceito de gênero que ainda existe na área. “Os partidos não disponibilizam recursos para a campanha de mulheres”.

Ela acredita que a situação pode ser mudada com a adoção de medidas efetivas de cota para mulheres, o direcionamento de recursos por parte dos partidos para campanhas de mulheres e a mudança na mentalidade da sociedade, por meio de uma ação direta na educação. “Não adianta nada haver cota ou recursos se as escolas ensinam que lugar de mulher é em casa, cuidando da família”, disse.

Ana Alice Alcântara dá um recado aos candidatos a prefeito de Salvador – todos homens. “É preciso criar políticas específicas para as mulheres”, disse, ressaltando que a cidade possui a maior concentração do País (40%) de mulheres que assumem a chefia de família.

terça-feira, 27 de maio de 2008

"Mulheres são burras", diz diretor do departamento penitenciário

"Mulheres são burras", diz diretor do departamento penitenciárioda Folha de S.Paulo, em Brasília
Diretor do Depen (Departamento Penitenciário Nacional), órgão vinculado ao Ministério da Justiça, Maurício Kuehne culpa as próprias mulheres pelo fato de 62% das presas do país não receberem nenhum tipo de visita social. "Vou usar uma explicação simplista e que me perdoemas mulheres: é que as mulheres são burras", disse Kuehne, ao ser questionado pela Folha se há uma explicação para esse percentual. "Elas [mulheres] vão visitar os homens [presos], mas, quando elas são encarceradas, os homens não vão visitá-las. É uma questão de cultura machista", completou.
Segundo o diretor do Depen, o baixo índice de visitação nos estabelecimentos para mulheres influencia diretamente no dia-a-dia do estabelecimento. "Influencia, porque a pessoa que não tem essa relaçãofamiliar, sua agressividade vai cada vez mais se acentuando. E a dele também, o homem agressivo nos estabelecimentos penais é justamente por conta disso, de não ter o apoio familiar."Segundo ele, 80% dos homens presos recebem visitas sociais. "Os quenão recebem é porque a penitenciária é distante, e a família não temrecursos [para o deslocamento]."No ano passado, o governo federal repassou R$ 210 milhões aos Estados,para ações específicas para o sistema penitenciário. Para 2008, estãoprevistos R$ 520 milhões. "[Esse valor] é um reconhecimento explícito, por parte do governo federal, de que precisa dar mais auxílio aos Estados.
Só que esse auxílio ainda é pouco. Ele não vai resolver oproblema carcerário dos Estados."Para a juíza Dora Martins, presidente do conselho-executivo da AJD(Associação Juízes para a Democracia), algumas burocracias também têmdificultado as visitas sociais às mulheres, como a exigência, emalguns estabelecimentos, de que as crianças estejam acompanhadas poraquele que tem a sua guarda. Um simples familiar, por exemplo, àsvezes não é suficiente. "Num domingo, na porta de uma penitenciária masculina e de uma feminina, você já percebe essa diferença. É um corte de gênero. Mas dentro da administração [penitenciária] há uma série de impedimentos. Elas [presas] se queixam de não receber a visita das crianças [filhos]", afirma a juíza Martins.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

QUERIDA MARINA por: Frei Betto

QUERIDA MARINA
Frei Betto


Caíste de pé! Traze no sangue a efervescente biodiversidade da floresta amazônica. Teu coração desenha-se no formato do Acre e em teus ouvidos ressoa o grito de alerta de Chico Mendes. Corre em tuas veias o curso caudaloso dos rios ora ameaçados por aqueles que ignoram o teu valor e o significado de sustentabilidade.
Na Esplanada dos Ministérios, como ministra do Meio Ambiente, tu eras a Amazônia cabocla, indígena, mulher. Muitas vezes, ao ouvir tua voz clamar no deserto, me perguntei até quando agüentarias. Não te merece um governo que se cerca de latifundiários e cúmplices do massacre de ianomâmis. Não te merecem aqueles que miram impassíveis os densos rolos de fumaça volatilizando a nossa floresta para abrir espaço à monocultura do gado, da soja, da cana, ao corte irresponsável de madeiras nobres.
Por que foste excluída do Plano Amazônia Sustentável? A quem beneficiará este plano, aos ribeirinhos, aos povos indígenas, aos caiçaras, aos seringueiros ou às mineradoras, hidrelétricas, madeireiras e empresas do agronegócio? Quantas derrotas amargaste no governo? Lutaste ingloriamente para impedir a importação de pneus usados e transformar o nosso país em lixeira das nações metropolitanas; para evitar a aprovação dos transgênicos; para que se cumprisse a promessa histórica de reforma agrária.
Não te muniram de recursos necessários à execução do Plano de Ação para a Prevenção e Controle do Desmatamento da Amazônia Legal, aprovado pelo governo em 2004. Entre 1990 e 2006, a área de cultivo de soja na Amazônia se expandiu ao ritmo médio de 18% ao ano. O rebanho se multiplicou 11% ao ano. Os satélites do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) detectaram, entre agosto e dezembro de 2007, a derrubada de 3.235 km2 de floresta.
É importante salientar que os satélites não contabilizam queimadas, apenas o corte raso de árvores. Portanto, nem dá para pôr a culpa na prolongada estiagem do segundo semestre de 2007. Como os satélites só captam cerca de 40% da área devastada, o próprio governo estima que 7.000 km2 tenham sido desmatados. Mato Grosso é responsável por 53,7% do estrago; o Pará, por 17,8%; e Rondônia, por 16%. Do total de emissões de carbono do Brasil, 70% resultam de queimadas na Amazônia.


Quem será punido? Tudo indica que ninguém. A bancada ruralista no Congresso conta com cerca de 200 parlamentares, um terço dos membros da Câmara dos Deputados e do Senado. E, em ano de eleições municipais, não há nenhum indício de que os governos federal e estaduais pretendam infligir qualquer punição aos donos das motosserras com poder de abater árvores e eleger ($) candidatos.
Tu eras, Marina, um estorvo àqueles que comemoram, jubilosos, a tua demissão - os agressores ao meio ambiente, os mesmos que repudiam a proposta de se proibir no Brasil o fabrico de placas de amianto e consideram que "índio atrapalha o progresso". Defendeste com ousadia nossas florestas, biomas e ecossistemas, incomodando a quem não raciocina senão em cifrões e lucros, de costas aos direitos das futuras gerações.
Teus passos, Marina, foram sempre guiados pela ponderação e fé. Em teu coração jamais encontrou abrigo a sede de poder, o apego a cargos, a bajulação aos poderosos, e tua bolsa não conhece o dinheiro escuso da corrupção.
Retorna à tua cadeira no Senado. Lembra-te ali de teu colega Cícero, de quem estás separada por séculos, porém unida pela coerência ética, a justa indignação e o amor ao bem comum. Cícero se esforçou para que Catilina admitisse seus graves erros: "É tempo, acredita-me, de mudares essas disposições; desiste das chacinas e dos incêndios. Estás apanhado por todos os lados. Todos os teus planos são para nós mais claros que a luz do dia. Em que país do mundo estamos nós, afinal? Que governo é o nosso?"
Faz ressoar ali tudo que calaste como ministra. Não temas, Marina. As gerações futuras haverão de te agradecer e reconhecer o teu inestimável mérito.

CARTA ABERTA de reivindicações dos prisioneiros da Colônia Penal de Simões Filho

CARTA ABERTA A POPULAÇÃO BAIANA

Nós, familiares e amigos de prisioneiros e prisioneiras do Estado da Bahia – ASFAP, reunidos extraordinariamente na cidade de Simões Filho precisamente às portas da Colônia Penal de Simões Filho vimos por meio deste comunicado chamar a atenção de toda sociedade para a política carcerária em curso no Estado da Bahia e exigir providências para que nossos familiares confinados não sejam mais uma vez julgados arbitrariamente e condenados a um regime desumano, vexatório e degradante.
06 meses depois de deflagrarem uma greve de fome por melhores condições na execução de suas penas e de tratamento os internos da Colônia penal de Simões Filho voltaram ao Estado de Greve de Fome – Manifestação Pacífica e Ordeira moralmente admitida em um regime democrático de Direito e juridicamente aceitável.
Não há nada de novo na manifestação agora em curso posto que as situações de descaso, abandono e violência continuam instaladas. Sabemos que, pode haver perseguição e retaliação a esses homens da Colônia Penal como ocorreu na manifestação passada com tropas de choque, espancamentos e transferências ilegais, mas nada importa, importa sim lutar por justiça e nós, apoiamos nossos familiares, pois suas alegações são justas e necessárias.
Apelamos para as organizações de Direitos Humanos, organizações de Movimento Negro, organizações de mulheres, instituições de defesa da pessoa humana e da cidadania e as pessoas de um modo geral que reflitam sobre o conteúdo racista e excludente de se manter na invisibilidade seres humanos tratados com espécie de 2ª categoria sem direito ao menos a livre manifestação.
Se o Governo espera cabeças penduradas na muralha, reféns tomados com facas e violência se engana aqui apresentamos seres humanos com sonhos, esperança, esposas, filhos e um propósito coletivo de mudar o circulo histórico que nos relegou aos porões e aos tumbeiros.
Por tudo isso, apresentamos as reivindicações dos prisioneiros da Colônia Penal de Simões Filho e esperamos a solidariedade das organizações e a sensibilidade do governo para atendê-las imediatamente.
AGILIDADE NOS PROCESSOS
UM RALO NO INTERIOR DAS CELAS PARA ESCOAMENTO DA ÁGUA
MELHOR ASSISTÊNCIA MÉDICA, ODONTOLÓGICA E JURÍDICA.
LIBERAÇÃO DE ALIMENTOS CRUS PARA QUE OS PRÓPRIOS INTERNOS POSSAM COZINHAR SUA ALIMENTAÇÃO
LIBERAÇÃO DE MAIS FOGÕES
CONSTRUÇÃO DE UM ABRIGO EXTERNO PARA OS VISITANTES
IGUALDADE DE TRATAMENTO COMO MANDA A LEI DE EXECUÇÃO PENAL 7210 DE 11 DE JULHO DE 1984
TRABALHO ELABORATIVO
TRABALHO DE RESSOCIALIZAÇÃOPEDEM A PRESENÇA DO MINISTÉRIO PÚBLICO, DA DEFENSORIA PÚBLICA, DA PRESIDENTE DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS DA CÂMARA DE VEREADORES DE SALVADOR, VEREADORA VÂNIA GALVÃO, DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS DA ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA, DO JUIZ COORDENADOR DA VARA DE EXECUÇÕES PENAIS DR. MOACYR PITA LIMA E DA IMPRENSA

terça-feira, 20 de maio de 2008

EM DEFESA DA VIDA E DA LIBERDADE - Audiência Pública

EM DEFESA DA VIDA E DA LIBERDADEAudiência Pública



Discutir e elaborar estratégias e ações de enfretamento ao genocídio decorrente do racismo e diversas formas de opressão que afeta diretamente a Juventude Negra Baiana, levando em consideração questões de Gênero, Raça E Orientação Sexual, haja vista uma desvantagem histórica desse segmento que ainda nos dias atuais a Juventude Negra vem sofrendo com o extermínio físico e simbólico protagonizado pelo estado e que contam com a competência de grande parte da sociedade, defendendo que as políticas públicas devem se construir em instrumentos de mudança dessa realidade, esse é um dos objetivos da Audiência pública “Em Defesa da Vida e da Liberdade” que acontecerá no dia 27 de maio de 2008 das 08 as 12h00min na capital baiana. O evento será realizado no plenário da Assembléia Legislativa da Bahia no Centro Administrativo da Bahia -CAB.

O encontro é uma proposição do Fórum Baiano de Juventude Negra, o fórum nasce como deliberação do I Encontro Nacional de Juventude Negra – ENJUNE consiste num espaço de construção de Políticas Públicas para Juventude Negra dialogando com grupos, movimentos, organizações e articulações de Juventude Negra. A audiência conta com a parceria da comissão de reparação da câmara dos Deputados presidida pela Deputada Fátima Nunes.


Estarão presentes na audiência juventudes de escolas públicas, organizações do Movimento Negro com setores de Juventude Negra, Movimentos Sociais, organizações governamentais e não governamentais, poder público, e jovens negras e negros não ligados a nenhuma organização.

Representantes do Poder público: SEMUR, SESAB, SETRI, SEPROMI, SJCDH, SEDES, SSP, MP, COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS-ALBA E FRENTE PARLAMENTAR DE JUVENTUDE – ALBA.

Sociedade Civil: CAMPANHA REAJA, MNU, ANA FLAUSINA LANÇANDO SEU LIVRO SOBRE A SITUAÇÃO DOS PRESIDIOS NO BRASIL, CDCN, ASSOCIAÇÃO DOS FAMILIARES E AMIGAS (OS) DE PRESAS (OS) - ASFAP.

Passando por temas como violência policial e grupos de extermínio sistema prisional e carcerário, drogas, aborto e discutindo modelo de segurança pública no estado da Bahia.


Maiores informações:

Geovan Adorno – 8721-9265 / 3117-1492
Elder Costa 8732 - 3469 / 3393-2313
Karla Akotirene – 8108-6339 / 8854-3034
Fabiana Franco - 88324755

VI Caminhada Lésbica e de Bissexuais de São Paulo.

VI Caminhada Lésbica e de Bissexuais de São Paulo.


22/05 - Feira Cultural da Diversidade - Tenda das Lésbicas - LBL - 10 às 22h
23/05 - Encontro Político de Lésbicas e Bissexuais - 9h30 às 12h30 e Reunião Nacional da Liga Brasileira de Lésbicas - 14h às 17h participação de ativistas Lésbicas e Bissexuais de SP e de diversos estados e regiões.
Informações no site da LBL: www.lbl.org.br
24/05 - VI Caminhada de Lésbicas e Bissexuais de SP - Praça Osvaldo Cruz (início da Paulista) até o Boulevar 9 de Julho (atrás do Masp)
14h00 - Engajamento de militantes batuqueiras na Fuzarca Feminista - Praça Osvaldo Cruz (pra ir se conhecendo e afinando nossas latas, tambores e tudo mais que a gente quiser!)
14h30 - Concentração, apresentações culturais e ato político
16h30 - Início da caminhada
18h00 - Encerramento com show e apresentações culturais - Boulevard 9 de Julho (atrás do Masp)
22h00 - Festa das Mulheres - Informações no site da LBL: www.lbl.org.br

25/05 - Lésbicas na Parada LGBT - Trio da Visibilidade Lésbica

Ativismo : VI Caminhada de Lésbicas e Bissexuais de SP - 24 de maio de 2008 Enviado por Murilo Moura Sarno em 5/5/2008 17:20:49 (2893 leituras)
Nós mulheres lésbicas e bissexuais convidamos todas as pessoas para celebrar, na VI Caminhada, a Diversidade e o direito de amar livremente, no sábado, dia 24 de maio. Ser lésbica é um direito! Nem igreja, nem mercado, nosso corpo nos pertence. Por um Estado laico de fato!Ser Lésbica é um direito!Defender este direito é defender uma sociedade plural, livre de preconceitos, que respeite as pessoas como elas são. Cada pessoa é única e sua felicidade passa pelo livre exercício da sexualidade e pela autonomia sobre o próprio corpo: DIREITOS DE TODAS AS PESSOAS. Queremos políticas públicas inclusivas para mulheres lésbicas e bissexuais .Não à violência. Não à lesbofobia. Não à mercantilização do corpo das mulheres!Nós mulheres somos vítimas, diariamente, de algum tipo de discriminação, preconceito e violência, potencializados quando somos lésbicas, negras ou pobres. O Mercado utiliza como estratégias a naturalização da violência, o rebaixamento da auto-estima das mulheres, a perpetuação do preconceito e a discriminação.Utiliza o corpo da mulher para vender todo tipo de mercadoria, estimular sua submissão ao poder masculino, ao consumismo e a valores retrógrados.Não aos fundamentalismos. Defesa do Estado Laico!Somos alvo constante do fundamentalismo, propagado cada vez mais pela Igreja e pelo Estado, com o objetivo de controlar o corpo e a sexualidade das mulheres. O fundamentalismo cultiva o pensamento único e a intolerância, de modo a perseguir e excluir quem não partilha de suas crenças, a maioria delas baseadas apenas em dogmas. Ora, o Estado brasileiro é laico desde 1891, a liberdade de opinião e a inviolabilidade de consciência estão asseguradas na Constituição. Isso significa a separação entre a religiosidade das pessoas e o Estado, entre as crenças e as políticas públicas.Pela autonomia, igualdade e cidadania!A sociedade que queremos deve garantir a igualdade de gêneros e respeitar a diversidade sexual. Queremos condições dignas na saúde pública que garantam o direito das mulheres de decidirem ter ou não ter filhos, sejam elas lésbicas, heterossexuais ou bissexuais. Queremos que a Lei assegure a autonomia e liberdade de escolha para o exercício da cidadania plena, a união civil de pessoas do mesmo sexo, o direito à inseminação artificial para as lésbicas pelo Sistema Único de Saúde, a legalização do aborto e a criminalização da lesbo-homofobia em todas as suas formas de expressão.A Liga Brasileira de Lésbicas realiza esta VI Caminhada pelo direito de ser lésbica, e se junta a todas as mulheres pelo fim do machismo, do racismo, do sexismo, da misoginia e da lesbofobia. Pela liberdade e por um Estado realmente laico e independente, que não aceite pressões do mercado e nem da igreja, mas que trabalhe para a construção de uma sociedade livre, justa e igualitária.E tudo começou2003 foi um ano muito importante para a organização das lésbicas. Ao mesmo tempo em que acontecia em São Paulo o V SENALE (Seminário Nacional de Lésbicas), considerado um marco para o fortalecimento da organização política de lésbicas e bissexuais, foi realizada, também nesse período, a I Caminhada de Lésbicas do país.Organizada pelo Grupo Umas & Outras, e inspirada na experiência que já acontecia no México, uma manifestação de rua composta por lésbicas.Desde então, todos os anos, no sábado que antecede a Parada do Orgulho GLBTT, as mulheres fazem sua caminhada para romper com a invisibilidade a que lésbicas e bissexuais estão sujeitas dentro do movimento glbtt, nos espaços de poder e na sociedade.Liga Brasileira de LésbicasA Liga Brasileira de Lésbicas/LBL é uma articulação política de mulheres lésbicas e bissexuais pela garantia efetiva da livre orientação e expressão afetivosexual. Tem como princípios o pluralismo, a autonomia, autodeterminação e liberdade, a democracia, a solidariedade; a transparência; a horizontalidade; a liberdade de orientação e expressão afetivo-sexual; a defesa do Estado laico; a defesa dos princípios feministas e suas bandeiras; a visibilidade lésbica; uma posição antiracista e anti-capitalista; e combate a lesbo-homofobia.Como expressão do movimento social, a LBL se constitui como espaço autônomo e não institucional de articulação política. Criada em janeiro de 2003 durante o Fórum Social Mundial, a LBL tem atuado para alcançar a sociedade desejada por todas. Uma sociedade livre de discriminações, onde nenhuma forma de amor seja passível de preconceito ou discriminação.Em São Paulo, a LBL luta hoje para garantir efetividade nas políticas públicas, reconhecendo as especificidades lésbicas e bissexuais e sua cidadania plena.Junte-se a nós. Participe da VI Caminhada de Lésbicas e Bissexuais de São Paulo!www.lbl.org.brlblsp@uol.com.brligabrasileiradelesbicas@uol.com.br



Memória dos Movimento Sociais na Bahia - Movimentodos Trabalhadores


segunda-feira, 19 de maio de 2008

Vivendo de Amor

Vivendo de Amor
Bell Hooks
O amor cura. Nossa recuperação está no ato e na arte de amar. Meu trecho favorito do Evangelho segundo São João é o que diz: "Aquele que não ama ainda está morto".
Muitas mulheres negras sentem que em suas vidas existe pouco ou nenhum amor. Essa é uma de nossas verdades privadas que raramente é discutida em público. Essa realidade é tão dolorosa que as mulheres negras raramente falam abertamente sobre isso.
Não tem sido simples para as pessoas negras desse país entenderem o que é amar. M. Scott Peck define o amor como "a vontade de se expandir para possibilitar o nosso próprio crescimento ou o crescimento de outra pessoa", sugerindo que o amor é ao mesmo tempo "uma intenção e uma ação". Expressamos amor através da união do sentimento e da ação. Se considerarmos a experiência do povo negro a partir dessa definição, é possível entender porque historicamente muitos se sentiram frustrados como amantes.
O sistema escravocrata e as divisões raciais criaram condições muito difíceis para que os negros nutrissem seu crescimento espiritual. Falo de condições difíceis, não impossíveis. Mas precisamos reconhecer que a opressão e a exploração distorcem e impedem nossa capacidade de amar.
Numa sociedade onde prevalece a supremacia dos brancos, a vida dos negros é permeada por questões políticas que explicam a interiorização do racismo e de um sentimento de inferioridade. Esses sistemas de dominação são mais eficazes quando alteram nossa habilidade de querer e amar. Nós negros temos sido profundamente feridos, como a gente diz, "feridos até o coração", e essa ferida emocional que carregamos afeta nossa capacidade de sentir e consequentemente, de amar. Somos um povo ferido. Feridos naquele lugar que poderia conhecer o amor, que estaria amando. A vontade de amar tem representado um ato de resistência para os Afro-Americanos. Mas ao fazer essa escolha, muitos de nós descobrimos nossa incapacidade de dar e receber amor.
*O Impacto da Escravidão no Ato de Amar*
Nossas dificuldades coletivas com a arte e o ato de amar começaram a partir do contexto escravocrata. Isso não deveria nos surpreender, já que nossos ancestrais testemunharam seus filhos sendo vendidos; seus amantes, companheiros, amigos apanhando sem razão. Pessoas que viveram em extrema pobreza e foram obrigadas a se separar de suas famílias e comunidades, não poderiam ter saído desse contexto entendendo essa coisa que a gente chama de amor. Elas sabiam, por experiência própria, que na condição de escravas seria difícil experimentar ou manter uma relação de amor.
Imagino que, após o término da escravidão, muitos negros estivessem ansiosos para experimentar relações de intimidade, compromisso e paixão, fora dos limites antes estabelecidos. Mas é também possível que muitos estivessem despreparados para praticar a arte de amar. Essa talvez seja a razão pela qual muitos negros estabeleceram relações familiares espelhadas na brutalidade que conheceram na época da escravidão. Seguindo o mesmo modelo hierárquico, criaram espaços domésticos onde conflitos de poder levavam os homens a espancarem as mulheres e os adultos a baterem nas crianças como que para provar seu controle e dominação. Estavam assim se utilizando dos mesmos métodos brutais que os senhores de engenho usaram contra eles. Sabemos que sua vida não era fácil; que com a abolição da escravatura os negros não ficaram imediatamente livres para amar.
Depoimentos de escravos revelam que sua sobrevivência estava muitas vezes determinada por sua capacidade de reprimir as emoções. Num documento datado em 1845, Frederick Douglass lembra que foi incapaz de se sensibilizar com a morte de sua mãe, por ter sido impedido de manter contato com ela. A escravidão condicionou os negros a conter e reprimir muitos de seus sentimentos. O fato de terem testemunhado o abuso diário de seus companheiros- o trabalho pesado, as punições cruéis, a fome- fez com que se mostrassem solidários entre eles somente em situações de extrema necessidade. E tinham boas razões para imaginar que, caso contrário, seriam punidos. Somente em espaços de resistência cultivados com muito cuidado, podiam expressar emoções reprimidas. Então, aprenderam a seguir seus impulsos somente em situações de grande necessidade e esperar por um momento "seguro" quando seria possível expressar seus sentimentos.
Num contexto onde os negros nunca podiam prever quanto tempo estariam juntos, que forma o amor tomaria? Praticar o amor nesse contexto poderia tornar uma pessoa vulnerável a um sofrimento insuportável. De forma geral, era mais fácil para os escravos se envolverem emocionalmente, sabendo que essas relações seriam transitórias. A escravidão criou no povo negro uma noção de intimidade ligada ao sentido prático de sua realidade. Um escravo que não fosse capaz de reprimir ou conter suas emoções, talvez não conseguisse sobreviver.
*Emoções Reprimidas: A Chave da Sobrevivência*
A prática de se reprimir os sentimentos como estratégia de sobrevivência continuou a ser um aspecto da vida dos negros, mesmo depois da escravidão. Como o racismo e a supremacia dos brancos não foram eliminados com a abolição da escravatura, os negros tiveram que manter certas barreiras emocionais. E, de uma maneira geral, muitos negros passaram a acreditar que a capacidade de se conter emoções era uma característica positiva. No decorrer dos anos, a habilidade de esconder e mascarar os sentimentos passou a ser considerada como sinal de uma personalidade forte. Mostrar os sentimentos era uma bobagem.
Tradicionalmente, as famílias do Sul do país ensinavam as crianças ainda pequenas que era importante reprimir as emoções. Normalmente as crianças aprendiam a não chorar quando eram espancadas. Expressar os sentimentos poderia significar uma punição ainda maior. Os pais avisavam: "Não quero ver nem uma lágrima". E se a criança chorava, ameaçavam: "Se não parar, vou te dar mais uma razão para chorar." Como é possível diferenciar esse comportamento daquele do senhor de engenho que espancava seu escravo sem permitir que ele experimentasse qualquer forma de consolo, ou mesmo que tivesse um espaço para expressar sua dor? E se tantas crianças negras aprenderam desde cedo que expressar as emoções é sinal de fraqueza, como poderiam estar abertas para amar? Muitos negros têm passado essa idéia de geração a geração: se nos deixarmos levar e render pelas emoções, estaremos comprometendo nossa sobrevivência. Eles acreditam que o amor diminui nossa capacidade de desenvolver uma personalidade sólida.
*Em Algum Momento Você** Nos Amou?*
Quando eu era criança, percebia que fora do contexto da religião e do romance, o amor era visto pelos adultos como um luxo. A luta pela sobrevivência era mais importante do que o amor. Somente as pessoas mais velhas - nossas avós e bisavós, nossos avôs e bisavôs, nossos padrinhos e madrinhas -pareciam dedicadas a arte e ao ato de amar. Elas nos aceitavam, cuidavam de nós, nos davam atenção e principalmente, afirmavam nossa necessidade de experimentar prazer e felicidade. Eram carinhosas e o demonstravam fisicamente. Nossos pais e sua geração, que só pensavam em subir na vida, geralmente passavam a impressão de que o amor é uma perda de tempo, um sentimento ou um ato que os impedia de lidar com coisas mais importantes.
Quando eu dava aulas sobre o livro Sula, de Toni Morrison, reparava que minhas alunas se identificavam com um trecho no qual Hannah, uma mulher negra já adulta, pergunta a sua mãe, Eva: "Em algum momento você nos amou?" E Eva responde bruscamente: "Como é que você tem coragem de me fazer essa pergunta? Você não tá aí cheia de saúde? Como não consegue enxergar?" Hannah não se satisfaz com a resposta, pois sabe que a mãe sempre procurou suprir suas necessidades materiais. Ela está interessada num outro nível de cuidado, de carinho e atenção. E diz para Eva: "Alguma vez você brincou com a gente?" Mais uma vez, Eva responde como se a pergunta fosse totalmente ridícula: Brincar? Ninguém brincava em 1895. Só porque agora as coisas são fáceis, você acha que sempre foram assim? Em 1895 não era nada fácil. Era muito duro. Os negros morriam como moscas... Cê acha que eu ia ficar brincando com crianças? O que é que iam pensar de mim?
A resposta de Eva mostra que a luta pela sobrevivência não significava somente a forma mais importante de carinho, mas estava acima de tudo. Muitos negros ainda pensam assim. Suprir as necessidades materiais é sinônimo de amar. Mas é claro que mesmo quando se possui privilégios materiais, o amor pode estar ausente.
E num contexto de pobreza, quando a luta pela sobrevivência se faz necessária, é possível encontrar espaços para amar e brincar, para se expressar criatividade, para se receber carinho e atenção. Aquele tipo de carinho que alimenta corações, mentes e também estômagos. No nosso processo de resistência coletiva é tão importante atender as necessidades emocionais quanto materiais.
Não é por acaso que o diálogo sobre o amor no livro Sula se dá entre duas mulheres negras, entre mãe e filha. Sua relação simboliza uma herança que será reproduzida em outras gerações. Na verdade Eva não alimenta o crescimento espiritual de Hannah, e Hannah não alimenta o crescimento espiritual de sua filha, Sula. Mas Eva simboliza um modelo de mulher negra "forte", de acordo com seu estilo de vida, por sua capacidade de reprimir emoções e garantir sua segurança material. Essa é uma forma prática de se definir nossas necessidades, como naquela canção de Tina Turner: "O que é que o amor tem a ver com isso?"
*Se Conhecêssemos o Amor*
O amor precisa estar presente na vida de todas as mulheres negras, em todas as nossas casas. É a falta de amor que tem criado tantas dificuldades em nossas vidas, na garantia da nossa sobrevivência. Quando nos amamos, desejamos viver plenamente. Mas quando as pessoas falam sobre a vida das mulheres negras, raramente se preocupam em garantir mudanças na sociedade que nos permitam viver plenamente.
Geralmente enfatizam nossa capacidade de "sobreviver" apesar das circunstâncias difíceis, ou como poderemos sobreviver no futuro. Quando nos amamos, sabemos que é preciso ir além da sobrevivência. É preciso criar condições para viver plenamente. E para viver plenamente as mulheres negras não podem mais negar sua necessidade de conhecer o amor.
Para conhecermos o amor, primeiro precisamos aprender a responder as nossas necessidades emocionais. Isso pode significar um novo aprendizado, pois fomos condicionadas a achar que essas necessidades não eram importantes. Por exemplo, no seu livro, O Hábito da Sobrevivência: Estratégias de Vida das Mulheres Negras, Kesho Scott relata uma experiência importante que a ensinou a sobreviver: Medindo treze anos, permaneci parada em frente a porta da sala. Minhas roupas estavam molhadas. Meus cabelos pingando. Estava chorando, chocada, precisando do colo da minha mãe. Ela me olhou de cima a baixo, devagar, levantou-se do sofá e caminhou ao meu encontro com o corpo carregado de críticas. Parada, com as mãos na cintura, sua sombra caindo sobre meu rosto, perguntou sem conseguir esconder a raiva: "O que aconteceu?" Hesitei como se surpresa por sua raiva e respondi: "Elas colocaram minha cabeça na privada. Disseram que não posso nadar com elas". "Elas" eram oito meninas brancas da escola. Tentei abraçá-la, mas ela se afastou bruscamente dizendo: "Que inferno! Pegue seu casaco e vamos embora".
Naquele momento Keshno estava aprendendo que suas necessidades emocionais não eram importantes. Logo depois ela escreve: "Minha mãe me ensinou uma valiosa lição naquele dia. Aprendi que deveria lutar contra a discriminação racial e sexual". É claro que essa é uma lição importante para as mulheres negras. Mas Keshno estava também aprendendo uma lição dolorosa, ao sentir que não merecia ser consolada após uma experiência traumática, como se não devesse nem mesmo esperar por isso, como se suas necessidades individuais não fossem tão importantes quanto a luta de resistência coletiva contra o racismo e o sexismo. Imaginem como essa história seria diferente se, ao entrar na sala tão abalada, Keshno tivesse recebido o consolo de sua mãe, e se primeiro sua mãe a ajudasse a se pentear e arrumar, para depois então explicar a necessidade de confrontar (talvez não naquele momento, se Keshno não estivesse preparada emocionalmente para o confronto) as alunas brancas que a atacaram. Dessa forma Keshno teria aprendido, aos treze anos, que sua saúde emocional era tão importante quanto o movimento contra o racismo e o sexismo - que na verdade essas duas experiências estavam interligadas.
Muitas de nós, mulheres negras, aprendemos a negar nossas necessidades mais íntimas, enquanto Desenvolvíamos nossa capacidade de confrontar a vida pública. É por isso que constantemente parecemos ter sucesso no trabalho, mas não na vida privada. Vocês entendem o que estou querendo dizer. Quando vemos uma mulher negra aparentemente segura de si, de seu trabalho, é bem provável que se formos visitá-la sem avisar, com exceção da sala, todo o resto da casa vai estar a maior bagunça, como se tivesse passado um furacão. Creio que esse caos representa uma reflexão de seu interior, da falta de cuidado consigo própria. A partir do momento que acreditarmos, de preferência desde crianças, que nossa saúde emocional é importante, poderemos suprir nossas outras necessidades.
Muitas vezes confundimos o reconhecimento de nossas emoções com o desejo de se manter em controle. Quando ignoramos nossas reais necessidades, a tendência é nos fragilizarmos, nos tornarmos vulneráveis e emocionalmente instáveis. As mulheres negras se esforçam muito para esconder essa situação.
Voltando a falar da mãe de Keshno, é provável que a dor de sua filha tenha trazido recordações de suas próprias feridas, nunca reveladas. Será que assumiu aquela atitude crítica, dura, ou mesmo cruel, para não se expor, chorar, e deixar de ser "uma mulher negra forte"? Mas se tivesse chorado, sua filha saberia que ela se identificava com aquela dor, que seria possível falar sobre o assunto, que não precisaria guardar essa dor.
Essa atitude representa o que muitas de nós presenciamos em circunstâncias semelhantes - ela mantinha o controle. Até mesmo sua postura física significava que mantinha o domínio da situação. Claro que, como mulher negra, essa mãe queria que sua presença fosse mais poderosa do que as meninas brancas. Um modelo de mãe que sabe como apoiar sua filha numa situação de sofrimento é representado no romance Sassafrass, Cypress e Indigo, de Ntozake Shange. Esse livro retrata mulheres negras como personagens fortalecidos pelo amor de sua mãe. Mesmo quando não concorda com certas opções de suas filhas, essa mãe as trata com respeito e oferece consolo. Esse é um trecho de uma carta que ela escreve para Sassafrass, que passa por dificuldades e quer voltar para casa. A carta começa assim: "Claro que você pode voltar pra casa! Aconteça o que acontecer, nunca vou deixar de te amar". Primeiro ela demonstra seu amor, depois aconselha, e volta a expressar seu amor: Você e Cypress me deixam louca com seu estilo de vida alternativo. Vocês precisam parar de nadar contra a corrente. Você sabe o que quero dizer... Lembre-se disso. Volte para casa e vamos resolver essa situação. Você terá muitas opções e ninguém vai te chatear ou te enganar. Nada como um dia depois do outro. Você acorda. Você come, vai trabalhar, volta pra casa, come outra vez, descansa, e vai dormir. Nossa situação melhorou. Continuo me perguntando onde foi que errei. Mas no fundo sinto que não estou errada. Estou certa. O mundo está de cabeça pra baixo e está tentando enlouquecer as minhas filhas. Agora chega. Eu te amo muito. Você está se tornando uma mulher adulta e sei o que isso significa. Volte para casa. Sei que vai descobrir algo mais sobre você. Com amor, Mamãe.
*Amando Aquilo Que Vemos*
A arte e a prática de amar começam com nossa capacidade de nos conhecer e afirmar. É por isso que tantos livros de auto-ajuda dizem que devemos mirar-nos num espelho e conversar com nossas próprias imagens. Tenho percebido que às vezes não amo a imagem ali refletida. Eu a inspeciono. Desde que acordo e me vejo no espelho, começo a me analisar, não com a intenção de me afirmar, mas de me criticar. Isso era comum lá em casa. Quando eu e minhas cinco irmãs descíamos as escadas em direção àquele território ocupado por meu pai, minha mãe e meus irmãos, entrávamos no mundo da "crítica". Tudo era observado e tudo estava errado conosco. Raramente uma de nós era elogiada.
Quando substituo a crítica negativa pelo reconhecimento positivo, sinto-me mais forte para começar o dia. A afirmação é o primeiro passo para cultivarmos nosso amor interior. Uso a expressão "amor interior" e não "amor próprio" porque a palavra "próprio" é geralmente usada para definir nossa posição em relação aos outros. Numa sociedade racista e machista, a mulher negra não aprende a reconhecer que sua vida interior é importante.
A mulher negra descolonizada precisa definir suas experiências de forma que outros entendam a importância de sua vida interior. Se passarmos a explorar nossa vida interior, encontraremos um mundo de emoções e sentimentos. E se nos permitirmos sentir, afirmaremos nosso direito de amar interiormente. A partir do momento em que conheço meus sentimentos, posso também conhecer e definir aquelas necessidades que só serão preenchidas em comunhão ou contato com outras pessoas.
Onde está o amor, quando uma mulher negra se olha e diz: "Vejo uma pessoa feia, escura demais, gorda demais, medrosa demais - que não merece ser amada, porque nem eu gosto do que vejo" Ou talvez: "Vejo uma pessoa tão ferida, que é pura dor, e não quero nem olhar pra ela porque não sei o que fazer com essa dor". Aí o amor está ausente. Para que esteja presente é preciso que essa mulher decida se olhar internamente, sem culpa e sem censura.
E ao definir o que vê, talvez perceba que seu interior merece ou precisa de amor. Nunca ouvi uma mulher negra dizer num grupo de apoio que não precisa de amor. Ela pode até querer esconder essa necessidade, mas não é preciso muito tempo de análise para que reconheça isso. Se perguntarmos diretamente a uma mulher negra se ela precisa de amor, a resposta provavelmente será positiva. Para nos amarmos interiormente, precisamos antes de tudo prestar atenção, reconhecer e aceitar essa necessidade. Se acreditarmos que não seremos punidas por reconhecermos quem somos ou o que sentimos, poderemos entender melhor nossas dificuldades.
Normalmente entrevisto a mim mesma e acho que outras mulheres devem fazer o mesmo. Às vezes é difícil entrar em contato com meus sentimentos, mas ao me fazer uma pergunta, geralmente encontro a resposta.
Algumas vezes a gente se olha e vê tanta confusão, tanta dor, que não sabemos o que fazer. Então precisamos procurar ajuda. Às vezes ligo para meus amigos e digo: "Não consigo entender o que sinto e não sei o que fazer, você pode me ajudar?" Muitas mulheres negras não têm coragem de pedir ajuda, pois isso significaria um sinal de fraqueza. Precisamos nos livrar desse condicionamento. Ter capacidade de pedir ajuda significa que temos poder. Cada vez que buscamos ajuda nosso poder aumenta, ao invés de diminuir. Experimente. Geralmente buscamos ajuda em momentos de crise. Mas podemos evitar a crise se reconhecermos nossa dificuldade em lidar com uma determinada situação. Para as mulheres negras acostumadas a manter o controle das situações, pedir ajuda pode significar a prática do amor, da confiança, reconhecendo que não precisamos resolver tudo sozinhas. A prática de se amar interiormente nos revela o que o nosso espírito necessita, além de nos ajudar a entender melhor as necessidades das outras pessoas.
As mulheres negras que escolhem ( e aqui enfatizo a palavra "escolhem") praticar a arte e o ato de amar, devem dedicar tempo e energia expressando seu amor para outras pessoas negras, conhecidas ou não. Numa sociedade racista, capitalista e patriarcal, os negros não recebem muito amor. E é importante para nós que estamos passando por um processo de descolonização, perceber como outras pessoas negras respondem ao sentir nosso carinho e amor. Outro dia minha amiga T. me contou que faz questão de visitar e conversar com o senhor de idade que trabalha numa loja perto de sua casa. E recentemente ele expressou sua gratidão pelo carinho que recebe dela. Anos atrás, quando ela passava por um processo de autodestruição, não tinha "vontade" de mostrar seu carinho. Hoje ela passa para ele o mesmo carinho que espera receber de outras pessoas.
Quando eu era criança algumas mulheres negras me amaram de forma "incondicional". Assim aprendi que o amor não precisa ser conquistado. Elas me ensinaram que eu merecia ser amada; seu carinho nutriu meu crescimento espiritual.
Muitos negros, e especialmente as mulheres negras, se acostumaram a não ser amados e a se proteger da dor que isso causa, agindo como se somente as pessoas brancas ou outros ingênuos esperassem receber amor. Uma vez disse para algumas mulheres negras que gostaria de viver em um mundo onde existisse amor, onde pudesse amar e ser amada. Depois disso elas passaram a rir de mim sempre que nos encontrávamos. Para que esse mundo possa existir é preciso acabar com o racismo e todas as formas de dominação. Se escolho dedicar minha vida à luta contra a opressão, estou ajudando a transformar o mundo no lugar onde gostaria de viver.
*O Amor Cura*
O "Poema da Mulher" de Nikki Giovanni foi importante para que eu percebesse o processo de autodestruição das mulheres negras. Publicado no livro, A Mulher Negra, editado por Toni Cade Bambara, esse poema termina assim: "olhe para aquela que teve toda sua vida marcada pela infelicidade porque é a única verdade que conheço". Nesse poema, Giovanni não apenas sugere que as mulheres negras foram socializadas para cuidar dos outros e ignorar suas necessidades, como também mostra como a autodestruição nos faz abandonar aqueles que nos querem. A mulher negra diz: "Como você se atreve a me querer - isso não faz sentido - porque se eu sou uma merda, você deve ser pior ainda".
Esse poema foi escrito em 1968. Algumas décadas depois, as mulheres negras continuam lutando para reconhecer sua dor e encontrar formas de curá-la. Aprender a amar é uma forma de encontrar a cura. A idéia de que o amor significa a nossa expansão no sentido de nutrir nosso crescimento espiritual ou o de outra pessoa, me ajuda a crescer por afirmar que o amor é uma ação. Essa definição é importante para os negros porque não enfatiza o aspecto material do nosso bem-estar. Ao mesmo tempo que conhecemos nossas necessidades materiais, também precisamos atender às nossas necessidades emocionais. Gosto muito daquele trecho da bíblia, nos "Provérbios", que diz: "Um jantar de ervas, onde existe amor, é melhor que uma bandeja de prata cheia de ódio".
Quando nós, mulheres negras, experimentamos a força transformadora do amor em nossas vidas, assumimos atitudes capazes de alterar completamente as estruturas sociais existentes. Assim poderemos acumular forças para enfrentar o genocídio que mata diariamente tantos homens, mulheres e crianças negras. Quando conhecemos o amor, quando amamos, é possível enxergar o passado com outros olhos; é possível transformar o presente e sonhar o futuro. Esse é o poder do amor. O amor cura.
*Tradução de Maísa Mendonça*
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Filha de Raúl Castro luta pelos direitos dos homossexuais em Cuba

Filha de Raúl Castro luta pelos direitos dos homossexuais em Cuba
MICHAEL VOSSda BBC Brasil, em Havana
Há um membro da família Castro que está lutando para introduzir mudanças radicais em Cuba. Não é o novo presidente, Raúl Castro, apesar de sua promessa de promover mudanças "estruturais e conceituais" nessa ilha comunista do Caribe, e sim sua filha, Mariela Castro.
No cargo de diretora do Centro Nacional de Educação Social (Cenesex, na sigla em espanhol), entidade financiada pelo governo, a filha do novo presidente tenta mudar as atitudes dos cubanos em relação às minorias.
No momento, Mariela Castro tenta convencer a Assembléia Nacional a adotar o que seria uma das leis sobre direitos de homossexuais e transexuais mais liberais da América Latina.
O projeto de lei em discussão reconhece uniões de casais do mesmo sexo, assim como direitos de herança. Também dá aos transexuais o direito de se submeter a cirurgia de mudança de sexo, além de permitir que eles troquem de nome em suas carteiras de identidade - tendo ou não feito a operação.
A legislação tem limites, porém. A adoção de crianças por casais do mesmo sexo não é mencionada, assim como a palavra "casamento".
"Muitos casais de homossexuais me pediram para não arriscar que a aprovação da lei fosse atrasada por causa da insistência na palavra 'casamento'", informou Mariela Castro. "Em Cuba, o casamento não é tão importante quanto a família, e desta maneira podemos pelo menos garantir os direitos pessoais e de herança de homossexuais e transexuais", afirmou.
Segundo ela, seu pai apóia seu trabalho, apesar de aconselhá-la a ir devagar. "Eu vi mudanças em meu pai desde que eu era criança. Eu o via como machista e homofóbico. Mas, à medida que cresci e me transformei como pessoa, também o vi mudar", afirmou.
Sua mãe, Vilma Espin, era uma defensora dos direitos das mulheres reconhecida internacionalmente. Para Mariela Castro, são os direitos dos homossexuais e dos transexuais que precisam ser defendidos.
Aconselhamento
Uma vez por semana, um grupo de transexuais se reúne em uma sessão de apoio na mansão em Havana que abriga o Cenesex. Uns são adolescentes, outros já estão na faixa dos 40 anos. Todos se vestem como mulheres. Alguns já passaram por cirurgias de mudança de sexo.
Um psiquiatra, pago pelo governo, oferece aconselhamento, apoio e educação em saúde. "Os transexuais sempre enfrentaram muita injustiça", disse Libia, que fez um curso de cabeleireira depois de participar dos encontros no Cenesex. "Aqui nós somos muito respeitados. Essa instituição ajudou a aumentar nossa auto-estima."
Passado de repressão
Atualmente, Cuba tem uma comunidade gay vibrante, apesar de geralmente discreta. Há uma praia gay muito popular em Playas del Este, a uma curta distância de Havana.
Na capital, oficialmente não há bares gays, mas há um clube que promove festas gays semanais com shows. De acordo com o gerente da casa, que pediu para não ser identificado, as festas gays são as mais concorridas do local. Essas festas com shows são legais, mas não são divulgadas, contando apenas com a propaganda boca-a-boca. Devido ao tratamento dispensado aos homossexuais de Cuba no passado, muitos freqüentadores do clube preferem permanecer anônimos.
Nos primeiros dias da revolução, muitos homossexuais foram mandados para campos de trabalho forçados, para "reeducação" e "reabilitação".
Esses campos não duraram muito tempo, mas ainda assim muitos gays eram recusados em alguns tipos de trabalho por causa de "desvios ideológicos".
Nos anos 80, passeatas eram organizadas para denunciar homossexuais.
Preconceitos arraigados
As relações sexuais entre adultos do mesmo sexo foram legalizadas em Cuba há cerca de 15 anos, mas até muito recentemente eram comuns os casos de repressão policial contra gays.
"Nos primeiros anos da revolução, a maior parte do mundo era homofóbica. O mesmo ocorria aqui em Cuba, o que levou a atos que eu considero injustos", informou Mariela Castro. "O que eu vejo agora é que tanto a sociedade cubana como o governo perceberam esses erros. Há também o desejo de estabelecer medidas que evitem que esses erros voltem a ocorrer."
No entanto, ainda é uma luta difícil. Antigos preconceitos permanecem profundamente arraigados, principalmente entre as gerações mais velhas.
"É como uma doença, ou talvez uma falha de caráter", afirmou um homem, que pediu para não ser identificado, quando questionado sobre o que pensava a respeito dos homossexuais.
Alguns, porém, são mais tolerantes. Falando com as pessoas nas ruas, muitas desaprovam a homossexualidade, mas acreditam que cada um deve ser livre para viver sua própria vida.
Ainda não há garantia de que a Assembléia Nacional irá aprovar o projeto de lei de Mariela Castro. Caso aprove, no entanto, isso vai marcar uma mudança revolucionária na política sexual de Cuba.