sábado, 22 de novembro de 2008
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
Relação entre racismo, consumo e violência movimenta debate no Ministério Público
Racismo, violência e consumo. O que essas três palavras podem representar na vida de uma pessoa supera índices e dados apontados em pesquisas e estudos acadêmicos. Para discutir as relações de poder e enfrentamento que permeiam as questões de raça, consumo e poder, o Ministério Público do Estado da Bahia (MP/BA) e o Instituto Pedra de Raio (IPR) promovem o Seminário Racismo, Consumo e Violência, no dia 27 de novembro, mês da Consciência Negra.
As palestras e discussões serão realizadas no auditório do Ministério Público, com presença de estudiosos, juristas, integrantes de movimentos sociais e representantes do poder público (programação em anexo). As inscrições são gratuitas e serão realizadas no dia e local do evento.
A promoção do Seminário Racismo, Consumo e Violência é fruto do convênio firmado entre o Instituto Pedra de Raio – Justiça Cidadã e o Ministério Público do Estado da Bahia- Promotoria de Combate a Discriminação Racial, com o objetivo de, através da produção de estudos, pesquisas e acompanhamento jurídico de casos, melhorar e ampliar os atendimentos às vítimas de injúria racial e fortalecer o combate ao racismo no estado da Bahia.
Casos de racismo
“Sou branca, tenho olhos azuis e tenho dinheiro. Não tenho medo da justiça”. Essa foi a resposta de T. S. B., cliente de uma instituição privada de ensino superior, sobre a possibilidade de responder judicialmente às ofensas raciais que dirigiu a funcionários que realizavam a matrícula de seu filho. Uma das vítimas, que prefere não ter o nome divulgado, chegou a procurar uma delegacia para registrar queixa, mas não teve seu pedido plenamente atendido. G. M. A. foi então ao Ministério Público da Bahia relatar o ocorrido. A partir do registro da denúncia, o MP/BA acompanha o caso na justiça criminal e o Instituto Pedra de Raio acompanha a ação civil de indenização por danos morais contra a agressora.
Há cerca de uma semana, um grupo de jovens que voltava de um evento promovido pela Central Única das Favelas no Centro Histórico de Salvador foram acusados de assaltantes pelo taxista que os levava e, além de serem agredidos fisicamente por policiais, tiveram que passar por uma série de constrangimentos e acusações racistas. Em 12 de outubro deste ano, Rita de Cássia, proprietária de uma floricultura em Brotas, foi chamada de “preta descompreendida” por uma consumidora. Rosaneide Leão, além da ofensa direta, completou a cena com a declaração: “preto tem que trabalhar no domingo mesmo porque é escravo”.
Se as relações de consumo ainda não figuram entre os temas mais debatidos quando o assunto é racismo, o aumento de casos envolvendo fornecedores e consumidores reafirmam a necessidade de se iniciar este debate em Salvador. Através do convênio, publicado no Diário Oficial do Poder Judiciário no dia 19 de agosto de 2008, outros casos já estão sendo encaminhados e acompanhados reciprocamente pelo Ministério Público e pelo IPR.
SERVIÇO
O quê: Seminário Racismo, Consumo e Violência
Quando: 8h00 às 18h00, 27 de novembro de 2008
Onde: Auditório do Ministério Público da Bahia, Av. Joana Angélica, Nazaré, Salvador, Bahia
Assessoria de Comunicação: Tássia Correia – Tel. 71. 3241-3851/ 71. 9993-4144
Sugestão de Fontes:
Augusto Sérgio São Bernardo
Presidente do Instituto Pedra de Raio – Justiça Cidadã.
Advogado, licenciado em Filosofia (UCSAL-BA), especialista em Direitos Humanos (UEFS) e Mestre em Direito Público (UNB).
Tel. 71. 3241-3851/ 71. 32432375
Almiro Sena
Coordenador da Promotoria do Combate ao Racismo do Ministério Público do Estado da Bahia, Pós-Graduado em Gestão Estratégica em Segurança Pública (UNEB) e Pós-graduado em Gestão e Política em Segurança Pública (UFBA).
Tel. 71. 3103-6400
PROGRAMAÇÃO
8h30min - Inscrição
Mesa: Segurança Pública, racismo, consumo e violência
9h às 10h30min
–Almiro Sena (Ministério Público – Promotoria de Combate a Discriminação)
- Luiza Bairros (SEPROMI)
- Joselito Bispo da Silva (SSP/BA)
10h30min – intervalo
11h – debate – mediador: a combinar
12h - Intervalo
Mesa: Consumo, Violência e Sociedade Multiétnica
14h às 15h30min
- Hélio Santos (USP) – a confirmar
- Dr. Sérgio São Bernardo (IPR)
- Dr. Teresa Cristina (Defensoria Pública/BA)
15h30min – debate – mediador: a combinar
17h – Encerramento
As palestras e discussões serão realizadas no auditório do Ministério Público, com presença de estudiosos, juristas, integrantes de movimentos sociais e representantes do poder público (programação em anexo). As inscrições são gratuitas e serão realizadas no dia e local do evento.
A promoção do Seminário Racismo, Consumo e Violência é fruto do convênio firmado entre o Instituto Pedra de Raio – Justiça Cidadã e o Ministério Público do Estado da Bahia- Promotoria de Combate a Discriminação Racial, com o objetivo de, através da produção de estudos, pesquisas e acompanhamento jurídico de casos, melhorar e ampliar os atendimentos às vítimas de injúria racial e fortalecer o combate ao racismo no estado da Bahia.
Casos de racismo
“Sou branca, tenho olhos azuis e tenho dinheiro. Não tenho medo da justiça”. Essa foi a resposta de T. S. B., cliente de uma instituição privada de ensino superior, sobre a possibilidade de responder judicialmente às ofensas raciais que dirigiu a funcionários que realizavam a matrícula de seu filho. Uma das vítimas, que prefere não ter o nome divulgado, chegou a procurar uma delegacia para registrar queixa, mas não teve seu pedido plenamente atendido. G. M. A. foi então ao Ministério Público da Bahia relatar o ocorrido. A partir do registro da denúncia, o MP/BA acompanha o caso na justiça criminal e o Instituto Pedra de Raio acompanha a ação civil de indenização por danos morais contra a agressora.
Há cerca de uma semana, um grupo de jovens que voltava de um evento promovido pela Central Única das Favelas no Centro Histórico de Salvador foram acusados de assaltantes pelo taxista que os levava e, além de serem agredidos fisicamente por policiais, tiveram que passar por uma série de constrangimentos e acusações racistas. Em 12 de outubro deste ano, Rita de Cássia, proprietária de uma floricultura em Brotas, foi chamada de “preta descompreendida” por uma consumidora. Rosaneide Leão, além da ofensa direta, completou a cena com a declaração: “preto tem que trabalhar no domingo mesmo porque é escravo”.
Se as relações de consumo ainda não figuram entre os temas mais debatidos quando o assunto é racismo, o aumento de casos envolvendo fornecedores e consumidores reafirmam a necessidade de se iniciar este debate em Salvador. Através do convênio, publicado no Diário Oficial do Poder Judiciário no dia 19 de agosto de 2008, outros casos já estão sendo encaminhados e acompanhados reciprocamente pelo Ministério Público e pelo IPR.
SERVIÇO
O quê: Seminário Racismo, Consumo e Violência
Quando: 8h00 às 18h00, 27 de novembro de 2008
Onde: Auditório do Ministério Público da Bahia, Av. Joana Angélica, Nazaré, Salvador, Bahia
Assessoria de Comunicação: Tássia Correia – Tel. 71. 3241-3851/ 71. 9993-4144
Sugestão de Fontes:
Augusto Sérgio São Bernardo
Presidente do Instituto Pedra de Raio – Justiça Cidadã.
Advogado, licenciado em Filosofia (UCSAL-BA), especialista em Direitos Humanos (UEFS) e Mestre em Direito Público (UNB).
Tel. 71. 3241-3851/ 71. 32432375
Almiro Sena
Coordenador da Promotoria do Combate ao Racismo do Ministério Público do Estado da Bahia, Pós-Graduado em Gestão Estratégica em Segurança Pública (UNEB) e Pós-graduado em Gestão e Política em Segurança Pública (UFBA).
Tel. 71. 3103-6400
PROGRAMAÇÃO
8h30min - Inscrição
Mesa: Segurança Pública, racismo, consumo e violência
9h às 10h30min
–Almiro Sena (Ministério Público – Promotoria de Combate a Discriminação)
- Luiza Bairros (SEPROMI)
- Joselito Bispo da Silva (SSP/BA)
10h30min – intervalo
11h – debate – mediador: a combinar
12h - Intervalo
Mesa: Consumo, Violência e Sociedade Multiétnica
14h às 15h30min
- Hélio Santos (USP) – a confirmar
- Dr. Sérgio São Bernardo (IPR)
- Dr. Teresa Cristina (Defensoria Pública/BA)
15h30min – debate – mediador: a combinar
17h – Encerramento
sábado, 8 de novembro de 2008
Presidente Lula sanciona lei que amplia direitos das mulheres grávidas
Presidente Lula sanciona lei que amplia direitos das mulheres grávidas
A responsabilidade do futuro pai com a vida do filho não será exigida apenas a partir do nascimento. De hoje em diante (6/11) a responsabilidade paterna é estendida para a gestação e o suporte à mãe da criança durante toda a gravidez. Isso é o que assegura a Lei nº 11.804, sancionada ontem (5/11) pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao disciplinar o direito de alimentos da mulher gestante e a forma como será exercido.Com vigência da concepção ao parto, o direito a alimentos gravídicos compreende valores para cobrir as despesas do período de gravidez. Estão garantidos também valores referentes à alimentação especial, assistência médica e psicológica, exames complementares, internações, parto, medicamentos e demais prescrições preventivas e terapêuticas indispensáveis, a juízo do médico, além de outras que o juiz considere pertinentes. Acesso aos direitos gravídicosTão logo seja confirmada a gravidez, a mulher poderá buscar na Justiça o direito a alimentos gravídicos do futuro pai da criança. Por determinação do juiz, o pai do bebê terá de se apresentar no juizado em até cinco dias. Em audiência, o juiz fixará os valores correspondentes a alimentos gravídicos até o nascimento do bebê, quando serão revertidos em pensão alimentícia em favor da criança. As despesas supridas pelo futuro pai da criança será condizente com a sua renda, considerando também a contribuição financeira da mulher grávida para as despesas da gestação. Na legislação anterior, as mulheres só podiam requerer o suporte financeiro após o nascimento da criança e quando comprovada a paternidade por meio de exame de DNA.Assessoria de Comunicação da SPM
A responsabilidade do futuro pai com a vida do filho não será exigida apenas a partir do nascimento. De hoje em diante (6/11) a responsabilidade paterna é estendida para a gestação e o suporte à mãe da criança durante toda a gravidez. Isso é o que assegura a Lei nº 11.804, sancionada ontem (5/11) pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao disciplinar o direito de alimentos da mulher gestante e a forma como será exercido.Com vigência da concepção ao parto, o direito a alimentos gravídicos compreende valores para cobrir as despesas do período de gravidez. Estão garantidos também valores referentes à alimentação especial, assistência médica e psicológica, exames complementares, internações, parto, medicamentos e demais prescrições preventivas e terapêuticas indispensáveis, a juízo do médico, além de outras que o juiz considere pertinentes. Acesso aos direitos gravídicosTão logo seja confirmada a gravidez, a mulher poderá buscar na Justiça o direito a alimentos gravídicos do futuro pai da criança. Por determinação do juiz, o pai do bebê terá de se apresentar no juizado em até cinco dias. Em audiência, o juiz fixará os valores correspondentes a alimentos gravídicos até o nascimento do bebê, quando serão revertidos em pensão alimentícia em favor da criança. As despesas supridas pelo futuro pai da criança será condizente com a sua renda, considerando também a contribuição financeira da mulher grávida para as despesas da gestação. Na legislação anterior, as mulheres só podiam requerer o suporte financeiro após o nascimento da criança e quando comprovada a paternidade por meio de exame de DNA.Assessoria de Comunicação da SPM
A violência contra a mulher não é o mundo que a gente quer!
.
A violência contra a mulher não é o mundo que a gente quer!
Um emblemático tiro na virilha de todas nós!!!
texto de Mercedes Lima sobre o caso Eloá
O Brasil acompanhou com apreensão e tristeza o drama da quase criança ELOÁ nas suas cem horas de opressão e terror em função de um ato de dominação machista. Lindemberg Alves, o namorado, com sua pretendida incontrolada paixão pela ex-namorada, acaba por seqüestrá-la, tortura-la e matá-la. Muitas vezes as feministas somos questionadas a propósito da validade ou propósito da luta feminista ainda hoje.A imprensa (escrita e televisiva) trata frequentemente com ironia a nossa luta insinuando, muitas vezes, que ela já se encontra vencida. A vida continua demonstrando que não...
O crime de seqüestro, seguido ou não de morte, vem sendo praticado pelos homens contra as mulheres na tentativa de evitar o final de uma relação amorosa, ou de reinício da relação já finda porque a mulher assim o deseja. É crime não contra Ana, Sandra ou Eloá, é crime contra a mulher simplesmente por ser mulher: é feminicídio.
Este tipo de crime vai ganhando visibilidade hoje, tanto quanto na década de setenta a questão da não punição de matadores de parceiras amorosas ou dos crimes que antes ocorriam nos silêncios de quartos e salas, quando as feministas vão às ruas para protestar e denunciar a impunidade em função da existência do instituto jurídico da defesa da honra. Tudo em um período em que nenhum movimento social, inclusive o das mulheres e feministas, poderia existir e muito menos ter visibilidade.
Quando em 1976 Doca Street é absolvido da acusação de assassinato de Ângela Diniz, alegando defesa de sua honra, houve uma grita geral das mulheres do país.Pouco depois, em março de 1981, Eliane de Grammont é assassinada por seu ex-marido, Lindomar Castilho.
Nos dois simbólicos casos os crimes ocorreram porque as vítimas queriam acabar com o relacionamento amoroso. Os crimes motivaram a campanha “Quem ama não mata”, a criação das primeiras Delegacias da Mulher e uma legislação inicial enfrentando a questão da violência contra a mulher.
Após os assassinatos de Ângela e Eliane e de outras tantas anônimas, temos a recente condenação de Pimenta Neves, ex-diretor de redação do jornal “O Estado de São Paulo”, pelo assassinato em 2000 da também jornalista e sua ex-namorada, Sandra Gomide, com uma pena reduzida para quinze anos. Até hoje somente esteve preso por sete meses. Continua respondendo por seu crime em liberdade: um escárnio contra a dignidade das mulheres.
Quanto ao comportamento do Estado e seus agentes sabemos que o capitalismo, o patriarcado, utilizam mecanismos para dominar as mulheres, fortalecendo e reforçando a opressão e a violência contra as mesmas. Pouco se discute, entretanto, é certo que há também que se falar e refletir a propósito da violência institucional contra as mulheres.
O Estado reluta em reconhecer a questão de gênero, e, portanto, de ter um programa de políticas públicas no combate à violência sexista e atendimento às mulheres em situação de risco e violência: com solução de continuidade, discutido com a sociedade e com as mulheres, com exemplar punição aos agressores, com capacitação e formação dos servidores públicos, com projetos na educação, buscando o fim da violência contra a mulher. Falamos em programa porque não podem ser medidas paliativas. Um programa sério, bem conduzido, perpassando todas as áreas governamentais e sociais, tratado como uma grave situação por toda a sociedade, teria que ter uma durabilidade de pelo menos dez anos sem qualquer solução de continuidade tendo como meta a extinção de violência contra a mulher.
No caso Eloá, ficou evidenciada a violência institucional contra a mulher, com a declaração do coronel, Eduardo Felix, do GATE – Grupo de Ações Táticas Especiais da Polícia Militar que se referiu ao assassino, como “um pobre rapaz de vinte e dois anos e muito apaixonado”. Interessante notar que quando se trata do aborto, não admitido pelo Estado, surgem centenas de teses sobre a importância da defesa da vida, mas neste caso a vida das duas meninas ( Eloá e Nayara), vítimas de seqüestro, cárcere privado, ficou relegada a um segundo plano tendo-se em vista que o assassino era um jovem menino apaixonado.. .. coitado!! A polícia demonstrou, diante deste crime de caráter machista, um grande despreparo para tratar da questão e também um desconhecimento sobre as relações de gênero, enquanto relações que mascaram as questões de hierarquia e poder.
As feministas temos insistido no sentido de que o Governo de São Paulo assine o Pacto Nacional de Enfrentamento à Violência contra a Mulher (um conjunto articulado de ações no combate à violência contra a mulher), porque é preciso capacitar os servidores públicos, principalmente os que lidam com maior proximidade com a questão da violência contra a mulher, para que tenham o pleno conhecimento, entendimento e respeito para com a aplicação e implementação da Lei Maria da Penha, não como uma panacéia para solução de problemas sociais brasileiros, mas como um início de conscientização para uma questão que implica em razões históricas de uma sociedade capitalista e patriarcal onde a violência tem um caráter estrutural.
Por outro lado, além do Estado, há uma mídia que cria mecanismos de controle sobre a mulher, que vende modos e estilos de vida, formas de pensar, visão de mundo, alimenta a indústria da beleza, enfim, uma cultura de violência. A novela das oito/nove promove há quarenta anos a venda de um conto de fadas, do amor entre pobres e ricos, da menina princesa que em geral se realiza ainda pelo casamento, pela relação amorosa.
São veiculados e construídos valores sociais, apresentando a mulher como uma pessoa vulnerável, incapaz e sem condições de decidir a própria vida, que tem o casamento e a maternidade como destinos, em contraposição à divulgação de uma imagem positiva do homem : ele trabalha, tem autonomia sobre o seu corpo e destino. Forja-se ainda um modelo de masculinidade rígido e legitimado socialmente a partir da força, da dominação e mesmo da violência. A televisão além de não refletir e não representar toda a diversidade das mulheres de hoje, insistem em um estereótipo que reforça o preconceito e a discriminação.
A dependência econômica causada pelo desemprego ou subemprego, o casamento apontado como um destino, o controle sobre o corpo e sexualidade das mulheres, banalizado e naturalizado, são instrumentos de dominação das mulheres. Quando estes mecanismos não funcionam, isto é, quando uma mulher se nega a qualquer tipo de dominação (terminando um relacionamento amoroso, recusando-se a entregar o seu corpo ou a prosseguir com um casamento ou relação amorosa, ou mesmo quando manifesta o simples desejo de voltar a trabalhar ou a estudar, surge a violência e morte).
Foi sintomático o local do tiro disparado contra Eloá : na virilha, um local de representação de identidade sexual. O tiro atinge a todas as mulheres na medida em que representou o resultado trágico de uma não aceitação, de uma recusa de dominação, com, aliás, de resto, ocorre sempre em uma sociedade de opressores e oprimidos. Representou para o assassino a vingança por ter deixado de ter domínio sobre a sexualidade e o corpo da ex-namorada, porque esta agiu,como sujeito de suas decisões, de sua vida...O tiro atinge a virilha de todas nós....
No meio de um drama humano um programa de TV resolve – sem qualquer interferência do Estado e seus agentes – “conversar” com o menino cheio de suas vontades” que ameaçava matar duas pessoas Ao longo de todo o cativeiro, para que as negociações prosseguissem, não poderia ter havido qualquer intervenção da mídia. Deveria representar uma intervenção numa atividade estatal, ou no mínimo, um desrespeito aos direitos humanos das mulheres.
Não satisfeita com desfecho do caso, terminado o seqüestro, a mídia instiga a todos a ver o crime como gerador, afinal, de algo bom, ou seja, com a doação pela família dos órgãos da menina, de órgãos tudo se redime. A família, claro, como determina a religião, haverá de conformar-se e perdoar o agressor e assassino. Que imaginário! Ou mesmo, que bela forma de trabalhar o imaginário social... A mídia não refletiu no caso de Eloá e também diariamente em sua grade de produção, a propósito da complexidade da construção social em desfavor da mulher. Pelo contrário, reifica este tipo de crime, tudo numa busca frenética por audiência que traz lucros e mais lucros...
A gênese do problema é histórico e social, as mulheres não queremos ser gestoras de medidas paliativas ou de atividades que simplesmente administram as conseqüências do problema. A noção de historicidade de Marx e Engels ( no 18 Brumário) desmistifica a naturalização do papel subordinado da mulher, da noção de família, desnuda, enfim, as formas como são construídas, reproduzidas e transformadas as relações de gênero e supera o conceito de que seria da essência da natureza humana a dominação, a subordinação. O processo de mudanças da situação da mulher não tem um caráter idealista e muito menos imutável. Nele está implícita a possibilidade humana que tem a mulher de ser sujeito histórico, agente na construção das instituições e de sua própria vida com escolhas feitas com autonomia.
Há que se garantir a autonomia das mulheres sobre suas vidas, seus corpos, considerando a gravidez e o casamento não como fatalidades do destino, o reconhecimento de modelos abertos de sexualidade e constituição familiar, sem qualquer interferência do Estado ou religião, o direito à recusa das formas de produção e consumo sem qualquer respeito às relações de equilíbrio familiar e humano, das relações com a natureza, na luta pela construção da igualdade e de valores apontados pelos direitos humanos, o desmonte de estruturas profundas que persistem nas relações de poder hierarquizadas. ..
MERCEDES LIMA
COLETIVO DE MULHERES ANA MONTENEGRO
A violência contra a mulher não é o mundo que a gente quer!
Um emblemático tiro na virilha de todas nós!!!
texto de Mercedes Lima sobre o caso Eloá
O Brasil acompanhou com apreensão e tristeza o drama da quase criança ELOÁ nas suas cem horas de opressão e terror em função de um ato de dominação machista. Lindemberg Alves, o namorado, com sua pretendida incontrolada paixão pela ex-namorada, acaba por seqüestrá-la, tortura-la e matá-la. Muitas vezes as feministas somos questionadas a propósito da validade ou propósito da luta feminista ainda hoje.A imprensa (escrita e televisiva) trata frequentemente com ironia a nossa luta insinuando, muitas vezes, que ela já se encontra vencida. A vida continua demonstrando que não...
O crime de seqüestro, seguido ou não de morte, vem sendo praticado pelos homens contra as mulheres na tentativa de evitar o final de uma relação amorosa, ou de reinício da relação já finda porque a mulher assim o deseja. É crime não contra Ana, Sandra ou Eloá, é crime contra a mulher simplesmente por ser mulher: é feminicídio.
Este tipo de crime vai ganhando visibilidade hoje, tanto quanto na década de setenta a questão da não punição de matadores de parceiras amorosas ou dos crimes que antes ocorriam nos silêncios de quartos e salas, quando as feministas vão às ruas para protestar e denunciar a impunidade em função da existência do instituto jurídico da defesa da honra. Tudo em um período em que nenhum movimento social, inclusive o das mulheres e feministas, poderia existir e muito menos ter visibilidade.
Quando em 1976 Doca Street é absolvido da acusação de assassinato de Ângela Diniz, alegando defesa de sua honra, houve uma grita geral das mulheres do país.Pouco depois, em março de 1981, Eliane de Grammont é assassinada por seu ex-marido, Lindomar Castilho.
Nos dois simbólicos casos os crimes ocorreram porque as vítimas queriam acabar com o relacionamento amoroso. Os crimes motivaram a campanha “Quem ama não mata”, a criação das primeiras Delegacias da Mulher e uma legislação inicial enfrentando a questão da violência contra a mulher.
Após os assassinatos de Ângela e Eliane e de outras tantas anônimas, temos a recente condenação de Pimenta Neves, ex-diretor de redação do jornal “O Estado de São Paulo”, pelo assassinato em 2000 da também jornalista e sua ex-namorada, Sandra Gomide, com uma pena reduzida para quinze anos. Até hoje somente esteve preso por sete meses. Continua respondendo por seu crime em liberdade: um escárnio contra a dignidade das mulheres.
Quanto ao comportamento do Estado e seus agentes sabemos que o capitalismo, o patriarcado, utilizam mecanismos para dominar as mulheres, fortalecendo e reforçando a opressão e a violência contra as mesmas. Pouco se discute, entretanto, é certo que há também que se falar e refletir a propósito da violência institucional contra as mulheres.
O Estado reluta em reconhecer a questão de gênero, e, portanto, de ter um programa de políticas públicas no combate à violência sexista e atendimento às mulheres em situação de risco e violência: com solução de continuidade, discutido com a sociedade e com as mulheres, com exemplar punição aos agressores, com capacitação e formação dos servidores públicos, com projetos na educação, buscando o fim da violência contra a mulher. Falamos em programa porque não podem ser medidas paliativas. Um programa sério, bem conduzido, perpassando todas as áreas governamentais e sociais, tratado como uma grave situação por toda a sociedade, teria que ter uma durabilidade de pelo menos dez anos sem qualquer solução de continuidade tendo como meta a extinção de violência contra a mulher.
No caso Eloá, ficou evidenciada a violência institucional contra a mulher, com a declaração do coronel, Eduardo Felix, do GATE – Grupo de Ações Táticas Especiais da Polícia Militar que se referiu ao assassino, como “um pobre rapaz de vinte e dois anos e muito apaixonado”. Interessante notar que quando se trata do aborto, não admitido pelo Estado, surgem centenas de teses sobre a importância da defesa da vida, mas neste caso a vida das duas meninas ( Eloá e Nayara), vítimas de seqüestro, cárcere privado, ficou relegada a um segundo plano tendo-se em vista que o assassino era um jovem menino apaixonado.. .. coitado!! A polícia demonstrou, diante deste crime de caráter machista, um grande despreparo para tratar da questão e também um desconhecimento sobre as relações de gênero, enquanto relações que mascaram as questões de hierarquia e poder.
As feministas temos insistido no sentido de que o Governo de São Paulo assine o Pacto Nacional de Enfrentamento à Violência contra a Mulher (um conjunto articulado de ações no combate à violência contra a mulher), porque é preciso capacitar os servidores públicos, principalmente os que lidam com maior proximidade com a questão da violência contra a mulher, para que tenham o pleno conhecimento, entendimento e respeito para com a aplicação e implementação da Lei Maria da Penha, não como uma panacéia para solução de problemas sociais brasileiros, mas como um início de conscientização para uma questão que implica em razões históricas de uma sociedade capitalista e patriarcal onde a violência tem um caráter estrutural.
Por outro lado, além do Estado, há uma mídia que cria mecanismos de controle sobre a mulher, que vende modos e estilos de vida, formas de pensar, visão de mundo, alimenta a indústria da beleza, enfim, uma cultura de violência. A novela das oito/nove promove há quarenta anos a venda de um conto de fadas, do amor entre pobres e ricos, da menina princesa que em geral se realiza ainda pelo casamento, pela relação amorosa.
São veiculados e construídos valores sociais, apresentando a mulher como uma pessoa vulnerável, incapaz e sem condições de decidir a própria vida, que tem o casamento e a maternidade como destinos, em contraposição à divulgação de uma imagem positiva do homem : ele trabalha, tem autonomia sobre o seu corpo e destino. Forja-se ainda um modelo de masculinidade rígido e legitimado socialmente a partir da força, da dominação e mesmo da violência. A televisão além de não refletir e não representar toda a diversidade das mulheres de hoje, insistem em um estereótipo que reforça o preconceito e a discriminação.
A dependência econômica causada pelo desemprego ou subemprego, o casamento apontado como um destino, o controle sobre o corpo e sexualidade das mulheres, banalizado e naturalizado, são instrumentos de dominação das mulheres. Quando estes mecanismos não funcionam, isto é, quando uma mulher se nega a qualquer tipo de dominação (terminando um relacionamento amoroso, recusando-se a entregar o seu corpo ou a prosseguir com um casamento ou relação amorosa, ou mesmo quando manifesta o simples desejo de voltar a trabalhar ou a estudar, surge a violência e morte).
Foi sintomático o local do tiro disparado contra Eloá : na virilha, um local de representação de identidade sexual. O tiro atinge a todas as mulheres na medida em que representou o resultado trágico de uma não aceitação, de uma recusa de dominação, com, aliás, de resto, ocorre sempre em uma sociedade de opressores e oprimidos. Representou para o assassino a vingança por ter deixado de ter domínio sobre a sexualidade e o corpo da ex-namorada, porque esta agiu,como sujeito de suas decisões, de sua vida...O tiro atinge a virilha de todas nós....
No meio de um drama humano um programa de TV resolve – sem qualquer interferência do Estado e seus agentes – “conversar” com o menino cheio de suas vontades” que ameaçava matar duas pessoas Ao longo de todo o cativeiro, para que as negociações prosseguissem, não poderia ter havido qualquer intervenção da mídia. Deveria representar uma intervenção numa atividade estatal, ou no mínimo, um desrespeito aos direitos humanos das mulheres.
Não satisfeita com desfecho do caso, terminado o seqüestro, a mídia instiga a todos a ver o crime como gerador, afinal, de algo bom, ou seja, com a doação pela família dos órgãos da menina, de órgãos tudo se redime. A família, claro, como determina a religião, haverá de conformar-se e perdoar o agressor e assassino. Que imaginário! Ou mesmo, que bela forma de trabalhar o imaginário social... A mídia não refletiu no caso de Eloá e também diariamente em sua grade de produção, a propósito da complexidade da construção social em desfavor da mulher. Pelo contrário, reifica este tipo de crime, tudo numa busca frenética por audiência que traz lucros e mais lucros...
A gênese do problema é histórico e social, as mulheres não queremos ser gestoras de medidas paliativas ou de atividades que simplesmente administram as conseqüências do problema. A noção de historicidade de Marx e Engels ( no 18 Brumário) desmistifica a naturalização do papel subordinado da mulher, da noção de família, desnuda, enfim, as formas como são construídas, reproduzidas e transformadas as relações de gênero e supera o conceito de que seria da essência da natureza humana a dominação, a subordinação. O processo de mudanças da situação da mulher não tem um caráter idealista e muito menos imutável. Nele está implícita a possibilidade humana que tem a mulher de ser sujeito histórico, agente na construção das instituições e de sua própria vida com escolhas feitas com autonomia.
Há que se garantir a autonomia das mulheres sobre suas vidas, seus corpos, considerando a gravidez e o casamento não como fatalidades do destino, o reconhecimento de modelos abertos de sexualidade e constituição familiar, sem qualquer interferência do Estado ou religião, o direito à recusa das formas de produção e consumo sem qualquer respeito às relações de equilíbrio familiar e humano, das relações com a natureza, na luta pela construção da igualdade e de valores apontados pelos direitos humanos, o desmonte de estruturas profundas que persistem nas relações de poder hierarquizadas. ..
MERCEDES LIMA
COLETIVO DE MULHERES ANA MONTENEGRO
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
domingo, 31 de agosto de 2008
Mulher e Trabalho: Em busca da justiça igualitária
A divisão sexual do trabalho é uma categoria utilizada pelas Ciências Sociais para indicar que em todas as sociedades, homens e mulheres realizam tarefas distintas. Entretanto, as tarefas atribuídas a cada sexo variam de cultura para cultura, ainda dentro da mesma cultura, de uma época para outra. Nota-se então, que o fator religiosidade foi, e ainda é, influenciador na nossa cultura e na construção de políticas públicas específicas. A divisão sexual do trabalho é resultado desses costumes patriarcais e reforçado pela não laicidade do Estado. A presença da mulher no trabalho assalariado dobrou entre 1970 e 1990, alcançando o número de quase 33 milhões de trabalhadoras em 1999, o que corresponde a pouco mais de 41% da População Economicamente Ativa –PEA – (IBGE/PNDA-1999). Porém, esse aumento quantitativo não resolve os problemas das mulheres no mercado de trabalho, que ainda ganham menos, mesmo ultrapassando os homens em escolaridade. Ou seja a escolaridade não constitui um fator que permite as mulheres o acesso a postos de trabalho de igual qualidade ou remuneração que os obtidos pelos homens. A libertação do potencial produtivo da mulher é uma das condições essenciais para sua emancipação. Por isso, deve-se cobrar políticas públicas, e novos direitos que extinga, de uma vez por todas, a divisão sexual do trabalho.
A forma de organização do mundo condiciona a mulher ao trabalho doméstico, responsabilidade esta, atribuída cultural e socialmente ás mulheres, desde o surgimento da propriedade privada, em que o homem viu-se desejoso de passar seu patrimônio aos seus filhos, e de consequentemente ter certeza de que realmente eram seus. A posse da mulher como um “patrimônio gerador de herdeiros”, as obrigava a ficar em casa, responsáveis pelo trabalho doméstico e educação dos filhos, garantindo assim, a certeza da paternidade.
Segundo Marx, em “A ideologia alemã”, a primeira forma de opressão existente, foi a do homem sobre a mulher. Contudo, a concepção desenvolvida por Marx e Engels apresenta uma série de problemas, tendo merecido uma crítica profunda, não só por parte das teóricas feministas, de antropólogos, historiadores, e outros, mas também de muitos daqueles que têm utilizado a perspectiva marxista de análise social. Um ponto fundamental é a crítica feminista em relação á divisão natural do trabalho.
Segundo Marx, e posteriormente Engels em “A origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, a primeira divisão do trabalho na família se dá através doa to sexual e da procriação. A apontam como uma divisão ‘natural”, como se o trabalho doméstico fosse inerente à condição feminina, ou como se fosse um fato da natureza doméstica hoje concentra 19% da população feminina economicamente ativa (IBGE/PNAD, 1995). Do total de trabalhadoras domésticas, 56% são negras, sendo 23% delas realizam jornadas superiores à 48horas semanais. Essas mulheres são penalizadas com a dupla jornada de trabalho, que é agravada pela discriminação racial. E só pra lembrar: 45,3% da população brasileira é formada por afrodescendentes.
A forma de organização do mundo condiciona a mulher ao trabalho doméstico, responsabilidade esta, atribuída cultural e socialmente ás mulheres, desde o surgimento da propriedade privada, em que o homem viu-se desejoso de passar seu patrimônio aos seus filhos, e de consequentemente ter certeza de que realmente eram seus. A posse da mulher como um “patrimônio gerador de herdeiros”, as obrigava a ficar em casa, responsáveis pelo trabalho doméstico e educação dos filhos, garantindo assim, a certeza da paternidade.
Segundo Marx, em “A ideologia alemã”, a primeira forma de opressão existente, foi a do homem sobre a mulher. Contudo, a concepção desenvolvida por Marx e Engels apresenta uma série de problemas, tendo merecido uma crítica profunda, não só por parte das teóricas feministas, de antropólogos, historiadores, e outros, mas também de muitos daqueles que têm utilizado a perspectiva marxista de análise social. Um ponto fundamental é a crítica feminista em relação á divisão natural do trabalho.
Segundo Marx, e posteriormente Engels em “A origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, a primeira divisão do trabalho na família se dá através doa to sexual e da procriação. A apontam como uma divisão ‘natural”, como se o trabalho doméstico fosse inerente à condição feminina, ou como se fosse um fato da natureza doméstica hoje concentra 19% da população feminina economicamente ativa (IBGE/PNAD, 1995). Do total de trabalhadoras domésticas, 56% são negras, sendo 23% delas realizam jornadas superiores à 48horas semanais. Essas mulheres são penalizadas com a dupla jornada de trabalho, que é agravada pela discriminação racial. E só pra lembrar: 45,3% da população brasileira é formada por afrodescendentes.
Texto extraído do Fansine Marias. Ano 1, no 4, página 4
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
Mulher negra: sua sexualidades e seus mitos.
Posted In: Mulheres . By Yoná Valentim
Ser Mulher Negra
Se a auto-estima começa na cabeça, a canção de Lamartine Babo e irmãos Valença, em dezembro de 1931, já confirmava : " O teu cabelo não nega mulata, porque és mulata na cor...".
O cabelo duro, de pico, de bombril e de tantos outros adjetivos tem ao longo dos tempos marcado a geração de nossa negritude.
O racismo e o preconceito de cor para a população negra no Brasil se originam no cativeiro a que essa população foi submetida. A herança desse cativeiro atravessa nossos dias com padrões e normas de uma sociedade branca, cheia de tabus e de preconceitos, onde cada um desempenha um papel submetido a modelos construídos por essa sociedade.
As formas que os negros encontraram para infringir as normas estabelecidas pelo branco resultaram em nossa sobrevivência, pois os quatrocentos anos de escravidão foram caracterizados por embates permanentes na luta pela vida.
E é essa luta que, embora oficialmente a escravidão já tenha acabado há mais de um século, permanece na ordem do dia.
Nossa luta hoje por emprego, saúde, moradia, educação, é a luta pelo direito da cidadania, o direito de termos um corpo e termos total liberdade e autonomia sobre esse corpo.
A consciência de um corpo com vontade e desejos é a busca da própria vida, da vida que mulheres e homens vêm buscando, da vida que os negros vêm sonhando. As diferentes escalas sociais buscam mudanças nos seus relacionamentos afetivos, mudanças essas que passam pela busca de um novo sexo, de um novo amor e, sobretudo, de uma nova forma de amar.
A participação de mulheres nos partidos, sindicatos, movimentos de bairro, associações de mães, movimentos negros e grupos feministas, além de inúmeros outros movimentos organizados, vem contribuindo de forma decisiva na formação da mulher, onde ela atua como ser pensante, buscando, decidindo e contribuindo nos mais diferentes espaços.
"Na militância descobri que tinha, e que podia ser mulher"(A.V.L., negra, 27 anos, professora, solteira).
"Foi militando que descobri minha força, descobri a mulher que existia dentro de mim"(E.C.L., negra, 44 anos, enfermeira, casada).
Achava aquele povo do sindicato um porre, até que um dia fui e não saí mais, hoje sei o quanto eu era alienada. Agora ninguém mais me segura! "(C.M.L., negra, 32 anos, operária têxtil).
A MULHER NEGRA E A ESTRUTURA FAMILIAR
O modelo de família patriarcal, onde a soberania do homem, pai, passa inclusive por escolher o parceiro para a mulher, não foi igualmente usado nas senzalas, ainda que como escrava , a negra, como qualquer outra "peça", atendesse às vontades do senhor de escravo. Nas senzalas, o número reduzido de escravas mulheres, permitia a elas a escolha de seu ou seus parceiros, ainda que proporcionando inconvenientes que não trataremos aqui.
Sonia Maria Giocomini, em seu livro Mulher e Escrava, descreve que "Era o senhor que decidia sobre a possibilidade e qualidade da relação entre homem e mulher escrava, sobre se haveria ou não vida familiar, se casados ou concubinados seriam ou não separados, se conviveriam com os filhos e onde, como e em que condição morariam... "(p.37).
Essas condições deixam claro que o modelo da estrutura familiar branca não foi o mesmo das possíveis famílias negras durante a escravidão.No entanto, pensar a família e sua estrutura nos dias atuais é perceber claramente inúmeros traços da família padrão, onde a família, a escola, a igreja e a sociedade, em geral, desde cedo, dirigem a educação da mulher para que essa seja submissa, insegura, dócil, para que seja boa filha, boa esposa e boa mãe. Feito isso, a mulher terá cumprido seu papel, ocupando o seu mundo doméstico, o seu mundo de solidão.
A SOLIDÃO DA MULHER NEGRA
A solidão de muitas mulheres e em especial das mulheres negras tem sido responsável por inúmeras uniões inexplicáveis, ou pelo menos, difíceis de serem entendidas.
"— Meu marido é um intelectual, não vende sua mão-de-obra para nenhum patrão capitalista. E eu trabalho 8 horas por dia, sustentando a casa e, quando chego, faço as tarefas do lar" (M.C.V., negra, 39 anos, assistente social, concubinada).
" — Eu estico meu cabelo, para não espetar as mãos do meu marido... ele gosta assim lisinho" (V.L., mulata, vendedora ambulante, casada).
" — Eu zelo pela harmonia do meu lar. Quando ele chega em casa, faço tudo para agradá-lo" (S.R.P., negra, 44 anos, costureira, casada).
VIOLÊNCIA X SILÊNCIO
Diariamente agressões, estupros e mortes são cometidos contra mulheres e, na maioria das vezes, não há denúncia e não há punições para os culpados.
Em nome da moral, do ciúme e do poder do macho, a violência acaba fazendo parte do cotidiano que é encarado de forma natural, uma vez que a visão de superioridade dos homens é estimulada desde a mais tenra idade.
Conquistar e manter um homen é o maior triunfo, depois da maternidade, que a sociedade atribui à mulher, e neste cenário de métodos e normas surge o medo e a insegurança.
Na tentativa de mudarmos as regras, muitas vezes nos transformamos nas mais ardentes e gostosas das criaturas, outras vezes, essa tentativa faz de nós, mulheres tímidas e cabisbaixas. Outras vezes, ainda, essa tentativa nos transforma em mulheres nada atraentes.
Seja como for, o medo da solidão aparece de forma tão subjetiva que somente uma mudança radical em nossa sociedade mudará por completo nossos comportamentos. A mudança na educação, em especial a mudança na educação de nossas crianças através da participação de mulheres e homens, fará possível uma efetiva e eficaz mudança em nossa sociedade e em nós mesmas.
Qualquer tentativa de mudança que não passar pela efetiva tomada de consciência de se tornar mulher, será apenas mais uma forma de justificar o uso e abuso de nossos corpos.
" ... Quando ele quer trepar e eu não, ele me pega à força. Agora não ligo mais, abro as pernas e deixo ele meter. Às vezes, finjo que gosto e ele fica mais calmo " (S.A., morena / preta, 26 anos, dona-de-casa, concubinada).
" Meu problema é que ele tem ejaculação precoce desde que casamos. Eu fico excitada, mas nunca consigo gozar" (R.C.M., negra, 32 anos, professora de geografia, casada).
" Não gosto muito de sexo, mas acho que eu sou a mulher e ele o homem. Como ele tem muita ' pressão', sempre lhe sirvo quando ele me procura" (F.M.S., 52 anos, servente, casada).
SEXO, NORMAS E TRANSGRESSÕES
A falsa moral normatiza para a sociedade um padrão a ser seguido: os casamentos heterossexuais, monogâmicos e, de preferência, que o homem traga para esse casamento experiências, são sem dúvida os mais desejados. Nessa sociedade, de normas e fragmentos, nossos corpos também são partes.
Temos cabeça, membros e tronco. É como se fossem partes inteiramente separadas, nada está ligado a nada. Não é somente a medicina que trata as partes do corpo de forma isolada, mas a constituição da sociedade em geral é responsável pela fragmentação do corpo.Desta maneira, o corpo não é visto de forma completa. Ele é subdividido em partes. A sexualidade se resume em Orgãos reprodutores e, quando muito, se amplia para as zonas erógenas.
Quando atingimos a plenitude da descoberta, e do amadurecimento, nos tornamos pessoas mais felizes. Assim, descobrimos nossos corpos com tesão.
Somos capazes de ser as melhores parceiras, pois nossos desejos são frutos de toda evolução, são frutos da harmonia que estamos vivendo.
A sexualidade da mulher não se revela de forma isolada. Há um conjuntos de fatores responsáveis por essa descoberta, dos quais o principal é a auto-estima.
"Posso estar cansada como for, mas quando meu nêgo me olha o mundo fica cor-de-rosa"(L.N., negra, 43 anos, servente, casada).
"Gosto de seduzir meus homens; gosto que eles se sintam o máximo, e eu também me sinto o máximo"(S.B.S., negra, 30 anos, historiadora, solteira).
"Tenho uma parceira fixa. Nunca amei um homem como amo essa mulher. Ela me complementa. Temos sempre orgasmos múltiplos"(C.S.R. , negra, 27 anos, artista plástica, solteira).
O sentimento que desperta em nós quando atingimos a capacidade de amar e ser amadas é tão forte que conseguimos projetá-lo em nossos olhos, em nossos poros; amar é um sentimento de dentro para fora e só amamos alguém quando amamos a nós mesmos. A difícil tarefa de amar o próximo está na dificuldade de amarmos a nós mesmos e aí novamente vem aquela estorinha de solidão e isolamento a que somos submetidas. DESCOBRIR-SE NEGRO
Com certeza, nossos filhos e filhas estão tendo maiores oportunidades que nós, ainda que na televisão tenhamos a Xuxa e suas Xuxetes, totalmente loiras ou amareladas, que os comerciais mais bacanas (já temos exceções) exibem.
Sempre crianças e ou/ adultos brancos. As poucas negras das novelas são empregadas domésticas ou ocupam funções subalternas. Ainda assim, temos levado a nossos filhos e filhas a mensagem da importância de sermos negros, importância de nos amarmos e nos respeitarmos como negros.
Quem de nós não se sentiu agredido quando o colega chamou de macaco, tiziu, saci, bombril, pico, mussum? ... Quem de nós não reagiu com violência ou se sentiu intimidado quando fez alguma coisa errada e foi chamado de "preto burro "ou "preto sei lá das quantas".
Tudo isso é acrescentado à nossa sexualidade, à nossa formação e à nossa auto-estima. Crescemos tentando "driblar" o preconceito e a discriminação.
Quando percebemos que nossa sexualidade não pode ser vista de forma alienada, notamos o nosso amadurecimento. Sentimos a sexualidade de ser mulher e conseguimos dividir essas descobertas com nossos filhos e filhas.
Como mulheres negras, não temos nossa sexualidade mais ou menos avantajada que outras cores e/ou raças, pois nossa sexualidade é nosso corpo e nossa alma.
É essa interação que levamos para a cama ( e não necessariamente a cama...) a plenitude de sermos mulheres, mulheres negras, mulheres.
A REALIDADE DE SER MULHER NEGRA
Em nossa pesquisa, entrevistamos um total de 85 mulheres negras. E a cada uma foi perguntado sobre sua cor, idade, profissão, de como é ser mulher e inúmeras perguntas sobre sua sexualidade, sobre o dia-a-dia. Dessas mulheres, 56 são casadas ou concubinadas e indagadas sobre o motivo que as levaram a casar-se, 37 responderam que casaram por amor, nove porque estavam grávidas, quatro para mudar de vida, três não sabiam o motivo, duas porque precisavam, e uma por dinheiro. No primeiro momento, falando sobre o casamento, nenhuma falava sobre o medo ou a solidão propriamente dita. Porém, no decorrer da entrevista, houve choros e justificativas para explicar a superação da solidão. Lavar, cozinhar, passar, esperar o marido, essa mulher estereotipada vem ficando para trás. É notório que essas mulheres, de um jeito ou de outro, vêm reivindicando e lutando pelo controle de seus corpos, sobre sua sexualidade. Essas mulheres fazem parte da mão-de-obra reprodutora. Ainda que ganhando menos que os homens, elas produzem no mundo 2/3 do trabalho da humanidade. Essas mulheres são "chefes" de família e como tal têm em seu cotidiano duas ou mais jornadas de trabalho, E, no entanto, a elas cabem as piores posições nas estatísticas produzidas pelo sistema...
Essas mulheres, como outras, querem assumir seu cabelo "duro, pixaim"; querem ocupar seus lugares na mídia, nas câmaras, nas escolas, nas assembléias, nas universidades, nos palácios e em todo e qualquer lugar ainda hoje reservado ao poder branco.
É necessário abreviarmos a distância que nos separa do momento de ocupar esses espaços. Estamos juntas, fazendo nossa parte e, ao resgatarmos nossa auto-estima, caminhamos nessa direção a passos largos, caminhamos rumo à democracia, caminhamos para a busca de nossa cidadania.
Poderíamos até nos questionar se nossos cabelos têm algo a ver com nossa cidadania. E mais uma vez, ao entendermos o cidadão como uma mulher, como um homem completo, entendemos que o hábito de mudar nossos cabelos é um verdadeiro flagelo que nos impomos para atingir um padrão estético que insiste em se afastar de nós.
"Quando tinha doze anos, trabalhava na casa de uma família com quatro filhos. Todas as noites, um deles vinha no meu quarto ( o mais velho, acho que tinha 16 a 18 anos ). Ele era muito estúpido. O do meio me dizia que eu seria uma piranha, pois era muito gostosa..."(A.P.C., morena, 30 anos, prostituta, concubinada).
"Ele, o filho da puta que me comeu, me dizia que era muito boa. Quando fiquei grávida, me deu um pontapé no traseiro e eu fiquei na rua da amargura" (V.C.A., negra, 23 anos, dançarina da noite, solteira).
"Eu não me lembro se algum dia ele perquntou se eu gostei ou não. Quando ele quer fazer, ele me diz para eu me virar e depois dorme" ( E. M.S., negra, 47 anos, lavadeira, casada).
O SEXO QUE TEMOS E O SEXO QUE DESCOBRIMOS
O sentir, o tocar, o perceber, o nascer, o se tornar mulher, assim como sentir, tocar, perceber, nascer e se tornar negro é, sem dúvida, a maior plenitude do ser humano. Ao tomarmos consciência de nossa sexualidade, descobrimos o universo, sentimos nossa negritude, tocamos em nossa beleza.
"Acordo às cinco e dez da manhã. Preparo as marmitas, lavo um pouco de roupa, chamo as crianças e coloco todo mundo para a creche. Dou duro o dia inteiro, mas à noite estou sempre pronta...O sexo ajuda a gente a relaxar" (C.A.O., escura, 38 anos, faxineira, casada).
"Quando finalmente descobri minha sexualidade, disse a mim mesmo "agora posso morrer feliz'"(C.Z.P., 27 anos, artista de teatro, solteira).
"Achava que sexo nunca passava de papai e mamãe. Quando transei com ... vi o céu cheio de estrelinhas. Agora sexo para nós é tão importante quanto comer e beber" (G.N., 37 anos, assistente social, solteira).
A preparação e o amadurecimento que necessitamos para nos tornarmos mulher não é o mesmo observado nos homens.
"A composição hormonal do homem, que é diferente da composição hormonal da mulher, permite a eles descarregarem no sexo toda a tensão do dia-a-dia... Há homens que necessitam fazer sexo quando estão muito tensos. No entanto, dificilmente uma mulher consegue a mesma proeza. Ela necessita estar muito bem com ela e com o mundo..."( A.C.O., negra, 36 anos, ginecologista, casada).
"O sexo que faço à noite é resultado de comum acordo, de como meu companheiro me beija, do até logo que damos um ao outro quando partimos para o trabalho"(A.C., negra, 24 anos, advogada, concubinada).
"Sexo para mim é toda a energia que nos envolve durante o dia e até a que nos envolve à noite"(G.A., mulata, 22 anos, costureira, concubinada).
Quando buscamos nossa sexualidade, encontramos um caminho sem volta: é um caminho de continuidades. A sexualidade da mulher, a sexualidade da mulher negra tem que ser a sexualidade do universo, sem mitos , sem culpas, sem medos. O universo branco, vermelho, amarelo, negro pode e deve ser o universo de cada um de nós, onde todos, mulheres, homens, negros e brancos, possamos assumir nossas belezas, nossas fraquezas, nossas fragilidades e, acima de tudo, descobrir nossa competência e nossa plenitude.
Edileuza Penha de Souza
Fonte: Fundação Joaquim Nabuco
Disponível em: http://cenbrasil.blogspot.com/2008/08/mulher-negra-sua-sexualidades-e-seus.html. acesso em 11/08/2008.
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